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Londres apoia assento permanente do Brasil na ONU enquanto tenta reformar um sistema que ajudou a congelar

O Reino Unido declarou apoio à concessão de um assento permanente ao Brasil no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), órgão central da governança global desde 1945. A posição foi apresentada pela embaixadora britânica no Brasil, Stephanie Al-Qaq, em entrevista à CNN Brasil, publicada em 9 de fevereiro de 2026. O gesto parte de uma potência nuclear que detém poder de veto e integra o núcleo duro da ordem internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial. Ao defender a reforma do sistema multilateral, Londres busca reposicionar-se como fiadora de mudanças controladas em uma estrutura historicamente excludente. O apoio ocorre em meio ao avanço de políticas abertamente unilateralistas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que atacam organismos multilaterais em nome da doutrina “América em primeiro lugar”.


Presidente Lula na ONU ©UNNEWS
Presidente Lula na ONU ©UNNEWS

A embaixadora afirmou que o governo britânico considera o Brasil um aliado estratégico para “fortalecer e modernizar” as instituições multilaterais, hoje paralisadas por vetos cruzados e assimetrias de poder. Segundo Stephanie Al-Qaq, o Conselho de Segurança “precisa voltar a funcionar de forma eficaz” para responder a crises globais, reconhecendo implicitamente o esgotamento de um modelo que concentra decisões em cinco países vencedores da Segunda Guerra. A diplomata também rejeitou a ideia de que Londres seja um obstáculo à reforma: “Não é o Reino Unido que está atrapalhando”, declarou à CNN Brasil.


O posicionamento britânico ganha peso político por contrastar com a postura abertamente hostil do governo estadunidense ao multilateralismo. Desde seu retorno à Presidência, Donald Trump tem defendido o enfraquecimento de organismos internacionais e a substituição de regras comuns por acordos bilaterais assimétricos, ampliando a margem de manobra de Washington. Essa estratégia reforça uma ordem internacional baseada em zonas de influência, aprofundando desigualdades estruturais entre centro e periferia do sistema global.


Nesse cenário, Londres tenta articular um bloco de chamadas “potências médias” como contrapeso parcial ao unilateralismo estadunidense, sem romper com os fundamentos da ordem que lhe garante privilégios. Al-Qaq citou, na entrevista, a convergência com países como Brasil e Canadá e mencionou a fala do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro de 2026, defendendo coordenação entre esses Estados para preservar normas multilaterais diante de pressões unilaterais.


A diplomata também indicou a intenção de ampliar a cooperação bilateral para além da diplomacia tradicional. Segundo ela, Brasil e Reino Unido já mantêm parcerias em áreas como clima, saúde, ciência e tecnologia, mas Londres quer aprofundar a relação política e estratégica, especialmente nos campos da defesa e do combate ao crime organizado. Esse movimento ocorre em um contexto de aumento dos orçamentos militares e de reconfiguração das cadeias globais de defesa.


No campo militar, Al-Qaq defendeu uma mudança no padrão clássico de relações entre países centrais e periféricos, historicamente marcado pela simples venda de armamentos. “Estamos interessados não só em vender coisas, mas em construir junto, aprender junto”, afirmou. Como exemplo, citou o programa do caça Gripen, desenvolvido pela Suécia com participação tecnológica do Reino Unido e do Brasil, apresentado pela diplomata como modelo de cooperação industrial e tecnológica.


Apesar do discurso reformista, o apoio britânico ao assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança não altera, por si só, a lógica concentradora do sistema internacional. A eventual ampliação do órgão depende do consenso dos atuais membros permanentes, todos beneficiários diretos do status quo. Ainda assim, a declaração de Londres sinaliza uma tentativa de administrar a crise de legitimidade da ordem multilateral sem abrir mão de seus pilares históricos, apostando no Brasil como parceiro funcional na contenção do unilateralismo estadunidense e na preservação de uma governança global profundamente assimétrica.

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