Neocolonialismo em curso: organizações denunciam entrega do Haiti a interesses estrangeiros
- www.jornalclandestino.org

- 16 de abr.
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Mais de 120 organizações haitianas denunciaram, em 14 de abril de 2026, contratos firmados pelo governo interino com empresas multinacionais. Os acordos envolvem segurança, controle de fronteiras, sistema prisional e arrecadação estatal, com valores que podem ultrapassar bilhões de dólares. As entidades classificam as medidas como parte de um projeto de destruição do Estado nacional e aprofundamento do controle estrangeiro. A denúncia foi divulgada em declaração conjunta que convoca a formação de uma frente de resistência patriótica. A investigação da fundação Je Klere revelou detalhes dos contratos e da atuação de mercenários no país.

A declaração, assinada por organizações políticas e populares haitianas, descreve a situação como “uma grande desgraça que ameaça a existência da nação haitiana” e afirma que as decisões do governo interino seguem uma lógica de submissão a interesses externos. Segundo o documento, “todas as decisões tomadas visam fortalecer o controle estrangeiro no país, implementando todo tipo de mecanismo para dividir a sociedade, expulsar a população de seus bairros e massacrá-la para impedir sua participação em decisões que dizem respeito à vida e ao futuro da nação”.
No centro das denúncias estão três contratos firmados pelo primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé com empresas multinacionais. Um deles prevê a construção de três centros penitenciários no Haiti, com custo estimado de até 6 bilhões de dólares ao longo de 50 anos. Outros dois acordos entregam a empresas ligadas ao mercenário estadunidense Erik Prince o controle das fronteiras, a arrecadação de impostos sobre importações e funções de segurança interna, transferindo atribuições centrais do Estado haitiano a interesses privados estrangeiros.
As revelações foram detalhadas em um relatório de 12 páginas publicado no início de março pela fundação Je Klere, organização haitiana de defesa dos direitos humanos. O documento confirma que a empresa Windward Wyoming LLC, vinculada a Erik Prince e sediada nos Emirados Árabes Unidos, opera no Haiti desde março de 2025 com drones e forças armadas privadas. Segundo o relatório, mais de 30 milhões de dólares já foram desembolsados pelo Estado haitiano para financiar essas operações.
Erik Prince, conhecido por sua atuação em guerras no Oriente Médio e acusado de crimes contra civis no Iraque, havia declarado em agosto de 2025 que possuía um contrato de dez anos com autoridades haitianas. À época, o Conselho Presidencial de Transição (CPT) negou qualquer vínculo com o mercenário. As informações reveladas posteriormente contradizem essa versão e evidenciam a presença consolidada de forças privadas estrangeiras no território haitiano.
Apesar dos recursos investidos, a situação de segurança no país não apresentou melhora significativa. As principais rodovias seguem sob controle de grupos armados, enquanto o aeroporto de Porto Príncipe permanece incapaz de receber voos comerciais. As organizações denunciam que as operações conduzidas por empresas privadas utilizam “drones kamikazes” em áreas urbanas, sem considerar a presença de civis. “O principal método que utilizam é enviar drones kamikazes aos territórios ocupados pelas gangues, sem levar em conta os vizinhos inocentes”, afirmam.
Em 4 de fevereiro de 2026, um novo contrato foi firmado com empresas associadas a Prince, prevendo a “reestruturação e modernização” dos serviços de alfândega e imigração. O acordo estabelece um pagamento inicial de 13 milhões de dólares e garante à empresa participação percentual nas receitas aduaneiras. Segundo a fundação Je Klere, os lucros dessas operações podem ultrapassar 1 bilhão de dólares em dez anos.
Outro contrato, assinado em 15 de dezembro de 2025 com a empresa estadunidense Metric Facility SA, prevê a construção de três prisões com capacidade total para 15 mil pessoas. O modelo de remuneração estabelece pagamento diário de 22 dólares por preso durante 50 anos, o que pode gerar um custo total estimado em 6 bilhões de dólares. O acordo inclui ainda uma cláusula que obriga o Estado haitiano a garantir ocupação mínima de 75% das unidades, mesmo que não haja detentos suficientes, assegurando lucro permanente à empresa.
A fundação Je Klere classificou os contratos como “leoninos”, destacando a ausência de transparência, consulta pública ou aprovação parlamentar. O relatório questiona a legitimidade do governo interino para assumir compromissos de longo prazo que impactam diretamente a soberania nacional. “Em um período de crise, as autoridades de facto teriam o poder de comprometer o Estado de forma duradoura com acordos internacionais que desafiem as prerrogativas de soberania consagradas na Constituição e nas Leis da República?”, questiona o documento.
As organizações haitianas também relacionam esses acordos ao apoio explícito dos Estados Unidos ao atual governo. Em 7 de fevereiro de 2026, quando o mandato do Conselho Presidencial de Transição se aproximava do fim, três navios de guerra estadunidenses foram posicionados na baía de Porto Príncipe, garantindo a continuidade do governo de Alix Didier Fils-Aimé, que permanece no poder sem processo eleitoral.
A declaração coletiva afirma que o cenário atual representa a normalização de práticas históricas de intervenção externa, agora conduzidas de forma aberta. Segundo o texto, “o contexto internacional, bem como o caos programado no país, fez com que todas as máscaras caíssem”, denunciando a consolidação de um modelo de controle estrangeiro direto sobre funções essenciais do Estado haitiano.












































