O que está por trás do aumento de malformações em recém-nascidos durante o genocídio em Gaza
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- 11 de mai.
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A destruição promovida por Israel na Faixa de Gaza provocou aumento nos casos de bebês nascidos com deformidades congênitas, segundo médicos palestinos e relatos de famílias atingidas pelos bombardeios. Hospitais registram crescimento de casos ligados à desnutrição, à exposição a fumaça tóxica, ao colapso do atendimento pré-natal e ao bloqueio imposto por Israel contra a entrada de alimentos, medicamentos e equipamentos médicos. Dados do Complexo Médico Nasser, em Khan Younis, indicam que a taxa de malformações dobrou desde o início do genocídio israelense iniciado em outubro de 2023.

Aya Mohammed Abu Shamala esperou três anos para engravidar do primeiro filho. Dois meses após o início da gestação, os ataques israelenses passaram a atingir áreas próximas de sua casa. “Certa noite, um míssil atingiu uma casa a poucos metros da nossa, e nossa casa ficou cheia de fumaça preta e poeira. Fiquei sem ar por vários minutos”, relatou Aya, hoje com 24 anos, ao The New Arab. Quando o bebê Mohammed nasceu, médicos diagnosticaram cardiopatia congênita e deformidades nos membros inferiores. “Quando o médico me disse que meu filho precisava de cirurgias urgentes, senti como se o mundo tivesse desabado sobre mim. Este é meu primeiro filho e eu sonhava em vê-lo saudável”, afirmou.
O caso de Mohammed se soma a centenas de registros feitos em Gaza desde o início da ofensiva israelense. O chefe do departamento de pediatria do Complexo Médico Nasser, Ahmed al-Farra, afirmou ao The New Arab que os hospitais observam crescimento nos casos de deformidades congênitas entre recém-nascidos. “As malformações congênitas já existiam antes da guerra, mas o que estamos vendo agora é um aumento significativo nos casos após a guerra”, declarou. Segundo Ahmed al-Farra, ao menos 322 casos de malformações foram registrados formalmente, enquanto outras centenas não entraram nas estatísticas devido ao colapso do sistema de saúde palestino e à destruição de hospitais promovida pelos bombardeios israelenses. “As malformações incluem orifícios no coração, deformidades nos membros, hidrocefalia, bem como anomalias cerebrais, cardíacas e renais, além de casos raros como fetos que nascem sem cabeça”, disse. O médico informou que a taxa de defeitos congênitos passou de cerca de 32 casos para cada 10 mil nascidos vivos antes do genocídio para aproximadamente 64 casos por 10 mil após o início dos ataques israelenses. Ahmed al-Farra também relatou aumento de 300% nos abortos espontâneos, além da morte de 615 fetos dentro do útero e de 457 recém-nascidos logo após o parto. “Houve também um aumento acentuado nas taxas de aborto espontâneo, chegando a 300%”, afirmou.
O jornalista palestino Tamer Nahed relatou que recém-nascidos em Gaza apresentam defeitos na coluna vertebral, ausência de membros, anomalias cardíacas e deformações cranianas. Segundo ele, médicos também registraram casos de bebês com “rostos que parecem ter sido queimados dentro do útero”. Ahmed al-Farra associou o crescimento dos casos à exposição de gestantes a gases tóxicos liberados pelos bombardeios israelenses, à fumaça provocada pela destruição urbana, à desnutrição e à ausência de atendimento médico. Aya relatou que precisou circular pelas ruas cobrindo o rosto com pedaços de pano para tentar suportar o cheiro de pólvora e de corpos espalhados após os ataques israelenses.
Majdoline Ezzat, mãe de cinco filhos, afirmou que enfrentou bombardeios enquanto estava grávida de seis meses. Seu filho Yahya nasceu com deformidades cranianas, atrofia muscular, problemas pulmonares, lábio leporino e um buraco no coração. “Dormimos ao som de explosões e acordamos com fumaça”, declarou ao The New Arab. “Em uma ocasião, inalamos a fumaça de um ataque aéreo que teve como alvo uma fábrica próxima. O cheiro era insuportável. Senti tontura e vomitei por horas”, acrescentou. Majdoline afirmou que as gestações anteriores transcorreram sem complicações semelhantes. “Sou mãe de quatro filhos. Antes de Yahya, nunca vivi uma gravidez com tanto medo. Tinha medo de morrer antes de vê-lo, e agora tenho medo de perdê-lo porque não existe tratamento.”
Outra moradora deslocada pela ofensiva israelense, Israa Fouad, deu à luz Adam após uma cesariana realizada em meio ao colapso hospitalar em Gaza. O bebê nasceu com deformidades no sistema nervoso e problemas na coluna vertebral. Israa vivia em Jabalia antes de fugir para uma escola transformada em abrigo no oeste de Gaza. Ela relatou exposição contínua à fumaça de ataques israelenses. “Em um ataque aéreo, casas muito próximas da nossa foram queimadas e a fumaça cobriu todo o céu. Eu tossi por dias e me senti sufocando”, afirmou a palestina de 31 anos. A escassez de alimentos provocada pelo bloqueio israelense agravou a situação das gestantes. “Às vezes, durante a gravidez, eu fazia apenas uma refeição por dia, e geralmente era só arroz ou lentilhas. Desenvolvi anemia grave e não consegui receber tratamento”, disse Israa.
Ahmed al-Farra explicou que o desenvolvimento fetal depende de nutrientes ausentes da dieta das palestinas submetidas ao bloqueio israelense. “A formação do tubo neural depende de muitos nutrientes, incluindo ácidos graxos, ácido fólico e ácido fítico”, afirmou. “Portanto, a mãe deve receber quantidades adequadas de ácidos graxos e ácido fólico, que são encontrados em vegetais, carne, aves e peixes, dos quais atualmente há carência.”
Organizações humanitárias internacionais alertam há meses para a fome provocada pelo bloqueio israelense, que impede a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. A restrição imposta por Israel atingiu hospitais, maternidades e centros de atendimento pré-natal, deixando gestantes sem vitaminas, exames e medicamentos. “Às vezes, sobrevivíamos por dias com pão seco e comida enlatada. Fiquei meses sem comer frutas e não conseguia encontrar leite nem as vitaminas prescritas pelo meu médico”, relatou Aya. Hoje ela vive em uma tenda em al-Mawasi, no oeste de Khan Younis. Majdoline contou que passava horas procurando farinha e chegou a consumir ração animal moída e pão estragado para alimentar os filhos. “A guerra me privou de alimentos básicos”, disse.
As três mulheres também relataram dificuldades para acessar hospitais devido à destruição das estradas, aos deslocamentos forçados e à ausência de transporte. Aya afirmou que não conseguia comparecer às consultas médicas regulares porque os caminhos até os hospitais estavam bloqueados pelos ataques israelenses. Majdoline disse que passou os quatro últimos meses de gravidez sem conseguir realizar exames médicos. Israa afirmou que o filho Adam não consegue receber tratamento em Gaza devido à destruição do sistema de saúde palestino. “A guerra não só roubou nossas casas, como também roubou o direito de nossos filhos de nascerem saudáveis”, declarou Majdoline.



































