ONGs criticam o Conselho da Paz por "falhar" em cumprir as promessas de ajuda a Gaza
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O chamado “Conselho da Paz” criado pelo presidente estadunidense Donald Trump para administrar o cessar-fogo em Gaza enfrenta denúncias públicas de fracasso feitas por organizações humanitárias que atuam no enclave palestino. Save the Children US, Oxfam e Refugees International afirmaram em coletiva nas Nações Unidas, em Nova York, na quinta-feira, 21 de maio, que Israel continua bloqueando a maior parte da ajuda humanitária prometida no acordo de cessar-fogo firmado em outubro de 2025. As organizações acusam o governo israelense de violar o próprio plano de 20 pontos patrocinado por Washington, que previa entrada de assistência “sem interferência” na Faixa de Gaza.

A denúncia foi apresentada durante conferência organizada na sede da ONU, onde representantes das entidades relataram que o Conselho da Paz ignorou reuniões, relatórios técnicos e alertas enviados por equipes que operam dentro de Gaza. A diretora-executiva da Save the Children US, Janti Soeripto, declarou que a situação humanitária segue em colapso seis meses após o início do cessar-fogo.
“Seis meses depois, as crianças em Gaza ainda não estão na escola, estão desnutridas e não recebem tratamento para seus ferimentos. A rede elétrica e a infraestrutura de água ainda estão 90% inutilizáveis”, afirmou Soeripto.
Ela acrescentou que a resolução aprovada pela ONU e o plano patrocinado por Trump exigiam assistência integral imediata, reconstrução de infraestrutura e ausência de bloqueios sobre ajuda humanitária. “Em todos os aspectos, isso não aconteceu”, disse.
O texto do plano de 20 pontos utilizado como base política do Conselho da Paz estabelecia que a distribuição de ajuda na Faixa de Gaza ocorreria sem interferência de Israel ou do Hamas, sob coordenação das Nações Unidas, do Crescente Vermelho e de instituições internacionais. As organizações presentes na coletiva afirmaram que os termos do acordo permanecem no papel enquanto Israel mantém controle total sobre os pontos de entrada do enclave.
Segundo as entidades humanitárias, ao menos 600 caminhões de ajuda deveriam entrar diariamente em Gaza desde o início do cessar-fogo. O volume autorizado por Israel permanece abaixo desse número. Na semana passada, o Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários informou que apenas um em cada dois caminhões vindos do Egito recebeu autorização israelense para descarregar suprimentos nas passagens controladas por Israel durante os primeiros 11 dias de maio.
As restrições também atingem pacientes palestinos. As organizações afirmaram que apenas 700 palestinos foram evacuados para tratamento médico desde o início do cessar-fogo, apesar de aproximadamente 18 mil pessoas necessitarem de atendimento médico que não existe mais dentro de Gaza após meses de genocídio e destruição sistemática da infraestrutura civil palestina.
Israel continua controlando quais palestinos podem sair de Gaza e quais podem retornar, incluindo aqueles transferidos ao Egito para tratamento médico.
Jeremy Konyndyk, presidente da Refugees International e ex-integrante dos governos Barack Obama e Joe Biden, afirmou que o bloqueio da ajuda não envolve qualquer dificuldade operacional ou diplomática.
“A obstrução precisa parar, e essa é uma das questões mais irritantes disso tudo. Não se trata de uma negociação complexa ou sofisticada”, declarou.
“Outras partes do acordo, os elementos políticos e de segurança, são complexos. Mas não bloquear ajuda humanitária não é uma proposta complexa. Tudo o que precisam fazer é não bloquear ajuda humanitária.”
O Ministério da Saúde de Gaza informou na quinta-feira que 883 palestinos foram mortos desde o início do cessar-fogo, vítimas de bombardeios israelenses ou disparos efetuados por soldados israelenses durante operações militares dentro do território palestino.
Apesar das denúncias, um relatório divulgado neste mês pelo próprio Conselho da Paz atribuiu ao Hamas a responsabilidade principal pelo fracasso da transição do cessar-fogo para uma nova etapa política. O documento acusa o movimento palestino de recusar desarmamento total sem garantias permanentes de segurança oferecidas por Israel e pelos Estados Unidos, principal patrocinador militar e diplomático israelense.
Konyndyk criticou o relatório produzido pelo conselho liderado por Trump.
“O relatório do Conselho da Paz, na minha visão, não parecia o trabalho de um mediador tentando tratar todos os lados da mesma maneira. Parecia algo unilateral”, afirmou.
Segundo ele, o documento menciona a crise humanitária apenas de maneira indireta e evita reconhecer o motivo central da continuidade da fome e do colapso civil em Gaza: o bloqueio israelense imposto em violação ao próprio cessar-fogo negociado sob supervisão estadunidense.
“Ele fala de forma indireta sobre algumas dificuldades humanitárias contínuas, mas em nenhum momento reconhece a razão disso — a principal razão sendo o padrão contínuo de obstrução pelo governo israelense em contradição direta com suas obrigações no acordo de cessar-fogo”, disse.
“O que existe de singular aqui é o nível de impunidade.”
As organizações humanitárias afirmaram que o problema central não é ausência de recursos financeiros ou de estrutura operacional, mas ausência de pressão política contra Israel para cumprimento do acordo.
Na reunião inaugural do Conselho da Paz realizada em fevereiro, em Washington, Trump anunciou promessas de US$ 7 bilhões destinadas a operações de ajuda em Gaza. Os recursos foram prometidos por Cazaquistão, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Bahrein, Catar, Arábia Saudita, Uzbequistão e Kuwait.
Catar, Arábia Saudita e Kuwait comprometeram US$ 1 bilhão cada. Trump também declarou que os Estados Unidos destinariam outros US$ 10 bilhões para operações gerais do Conselho da Paz, embora não necessariamente direcionados a Gaza.
O Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários ficou encarregado de levantar mais US$ 2 bilhões para Gaza. A Fifa prometeu US$ 75 milhões para projetos esportivos dentro do enclave palestino.
Trump afirmou ainda que o Japão sediará uma conferência internacional de arrecadação envolvendo Coreia do Sul, Filipinas e Singapura. Na ocasião, o presidente estadunidense declarou que China e Rússia também participariam das iniciativas ligadas ao conselho.
Apesar da retórica diplomática apresentada pela Casa Branca, a carta constitutiva do Conselho da Paz não menciona as palavras “Gaza” ou “palestino”.
O governo Trump também abandonou a chamada “solução de dois Estados” como objetivo formal da política externa estadunidense para Palestina e Israel, rompendo uma posição mantida durante décadas por Washington enquanto o financiamento militar estadunidense às operações israelenses continuava sendo preservado.
Trump declarou em fevereiro que pretende utilizar o Conselho da Paz para administrar outras crises internacionais diante daquilo que classificou como incapacidade das Nações Unidas.
A Espanha recusou adesão ao conselho, assim como a maior parte dos países europeus. Representantes da União Europeia participaram da reunião de fevereiro apenas na condição de observadores. O Vaticano recusou convite para participar do encontro, enquanto o governo do Canadá teve seu convite revogado pela administração Trump.



































