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Os vendilhões do Pix: a disputa que sacudiu as redes

A nova rodada de tarifas anunciada pelo governo dos Estados Unidos contra produtos brasileiros provocou uma reação imediata nas redes sociais e ampliou a associação entre Flávio Bolsonaro e a medida. Levantamentos de monitoramento digital indicam predominância de menções negativas ao senador e forte percepção de que sua atuação política está relacionada ao episódio. O debate também recolocou no centro da disputa pública temas ligados à soberania nacional, ao sistema Pix e à influência de interesses econômicos estadunidenses sobre decisões de política comercial.


Flávio Bolsonaro | Foto: Vitor SOUZA / AFP via Getty Images
Flávio Bolsonaro | Foto: Vitor SOUZA / AFP via Getty Images

O anúncio das novas tarifas por parte do governo estadunidense ocorreu entre os dias 1º e 2 de junho e repercutiu de forma intensa nas plataformas digitais brasileiras. A medida surgiu poucos dias após a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, período em que aliados políticos do senador celebravam decisões adotadas por Washington, incluindo a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.


Antes da confirmação das tarifas, o jornal O Estado de S. Paulo publicou, em 31 de maio, uma reportagem informando que empresários aguardavam novas sanções comerciais contra produtos brasileiros ainda naquela semana. A informação foi contestada pelo influenciador Paulo Figueiredo, aliado político de Eduardo Bolsonaro e residente nos Estados Unidos. “Segundo todas as minhas fontes, a reportagem é FALSA. Eu acho minhas fontes nos EUA melhores que a do @Estadao”, escreveu Figueiredo em publicação nas redes sociais.


Na mesma manifestação, o influenciador afirmou que não haveria necessidade de tarifas porque, segundo ele, “Flavio vai ganhar e faremos um acordo comercial bom para os dois países que o atual governo incompetente é incapaz de fazer”. Com a confirmação das medidas anunciadas por Washington, a repercussão digital passou a associar diretamente Flávio Bolsonaro ao chamado tarifaço. Entre os termos que ganharam circulação nas redes apareceram “TariFlávio”, “O Pix é Nosso” e “Bolsonaros Inimigos do Brasil”.


Dados divulgados pela empresa Palver apontam que os nomes “Flávio” e “Bolsonaro” apareceram em cerca de um terço das mensagens relacionadas ao tema em grupos monitorados de WhatsApp e Telegram. Segundo o levantamento, aproximadamente 75% das menções ao senador apresentavam conteúdo negativo.


A mesma pesquisa indicou que 81% dos usuários analisados consideravam que Flávio Bolsonaro possuía relação direta ou indireta com a adoção das tarifas pelo governo estadunidense.


As mensagens monitoradas relacionavam o parlamentar a possíveis prejuízos econômicos para o Brasil, a ameaças ao sistema Pix e a questionamentos sobre soberania nacional. Parte das publicações também estabeleceu paralelos entre o episódio e a memória do confisco da poupança realizado durante o governo de Fernando Collor em 1990.


Outro levantamento, realizado pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados e divulgado em 3 de junho, apontou que a expressão “BOLSONAROS INIMIGOS DO BRASIL” alcançou a terceira posição entre os assuntos mais comentados do país. “TARIFLÁVIO” apareceu entre os principais temas monitorados, ao lado de “O PIX É NOSSO”, “BOLSONAROS TRAIDORES DA PÁTRIA” e “Trump”.


Dados da plataforma AtivaWeb DataLab registraram quase 9 milhões de menções ao tema entre os dias 2 e 3 de junho. Segundo a pesquisa, 67,8% das manifestações sobre o anúncio estadunidense apresentavam teor negativo. A rejeição específica às tarifas alcançou 81%, enquanto a associação da família Bolsonaro ao episódio registrou 69% de avaliações negativas.


O mesmo monitoramento apontou que publicações vinculadas à defesa da soberania nacional concentraram 74,2% de avaliações positivas.


Os levantamentos identificaram quatro linhas centrais de interpretação predominantes nas redes: a associação dos Bolsonaro à ideia de traição ao país; a acusação de que discursos patrióticos estariam em contradição com ações consideradas prejudiciais ao Brasil; a percepção de que Flávio Bolsonaro estaria atuando em benefício de interesses próprios; e a responsabilização do senador pelas medidas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos.


No plano simbólico, parte das publicações comparou Flávio Bolsonaro a Joaquim Silvério dos Reis, personagem ligado à delação que levou à prisão de Tiradentes durante o período colonial. O paralelo apareceu associado à ideia de colaboração com interesses externos em detrimento de interesses nacionais.


Além da disputa política imediata, o debate passou a envolver questões econômicas ligadas ao sistema Pix. Segundo a análise apresentada no texto original, a medida adotada pelo governo estadunidense estaria relacionada aos interesses de grandes operadoras de cartões de crédito sediadas nos Estados Unidos, empresas que disputam espaço com sistemas de pagamento instantâneo desenvolvidos pelo Banco Central do Brasil.


A discussão também incorporou críticas ao posicionamento do governo estadunidense sobre decisões adotadas pelo Estado brasileiro para combater campanhas de desinformação em plataformas digitais.


O documento divulgado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) criticou determinações judiciais brasileiras relacionadas à remoção de conteúdos e à suspensão de perfis em redes sociais. Segundo o texto, tribunais brasileiros teriam emitido “ordens secretas” dirigidas a empresas estadunidenses de tecnologia.


A controvérsia colocou em debate dois temas simultâneos: a disputa econômica envolvendo sistemas de pagamento digitais e o embate político sobre regulação de plataformas digitais, circulação de informações e soberania nacional diante de pressões exercidas por interesses econômicos e políticos sediados nos Estados Unidos.

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