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Por que a retomada da cooperação militar entre Turquia e Egito preocupa Israel

Egito e Turquia ampliaram exercícios militares conjuntos em níveis que não eram registrados há décadas, com foco principal na cooperação aérea e naval. As manobras incluem caças F-16 e ocorreram em bases dos dois países ao longo de 2025 e 2026. O movimento ocorre em um contexto de reorganização das alianças de segurança no Oriente Médio e de preocupações expressas por Israel.


Erdogan, presidente da Turquia
Erdogan, presidente da Turquia

A cooperação militar entre Egito e Turquia alcançou em 2025 e 2026 o maior nível desde o início da década de 2010, com exercícios aéreos e navais realizados em sequência. Em junho de 2026, o Egito sediou exercícios conjuntos da força aérea com participação de aeronaves turcas em diferentes bases aéreas no território egípcio, marcando o primeiro treinamento desse tipo em mais de dez anos.


Logo após essa etapa, a Turquia recebeu forças aéreas egípcias para um segundo exercício conjunto, em sequência direta às manobras realizadas no Egito. As forças armadas egípcias registraram em comunicado, citado pelo jornal Al-Ahram, que o exercício integra o processo de “crescente cooperação militar entre as forças armadas do Egito e da Turquia” e se insere em esforços de “reforçar os laços de defesa entre os dois países”.


Antes dessas operações aéreas, os dois países já haviam realizado exercícios navais conjuntos no final de 2025, os primeiros em 13 anos. Essas manobras incluíram caças F-16, fragatas e um submarino, com coordenação entre as marinhas de ambos os lados.


Os F-16 de fabricação estadunidense compõem parte central das frotas aéreas dos dois países. A Turquia mantém a terceira maior frota global desse modelo, enquanto o Egito ocupa a quarta posição. O uso desses caças ocorreu em todos os exercícios recentes, tanto navais quanto aéreos, reforçando a dependência operacional de plataformas adquiridas dos Estados Unidos.


A força aérea egípcia também inclui caças Dassault Rafale de fabricação francesa e aeronaves MiG-29M/M2 de origem russa adquiridas na década de 2010. A Turquia, por sua vez, historicamente dependente de F-16, iniciou um processo de diversificação com aquisição de Eurofighter Typhoon do Reino Unido e desenvolvimento do caça furtivo TF Kaan.


Entre 1993 e 1995, a Turquia chegou a produzir 46 aeronaves F-16 para o Egito em cooperação militar bilateral. As relações entre os dois países passaram por ruptura após 2013, quando o governo de Egito sob Abdel Fattah el-Sisi assumiu o poder após a deposição de Mohamed Morsi. O governo turco de Recep Tayyip Erdogan manteve apoio político à Irmandade Muçulmana, o que resultou em anos de tensão diplomática.


Após 2013, a cooperação militar foi reduzida e os contatos foram limitados. Nos últimos anos, entretanto, houve reaproximação progressiva, com retomada de exercícios conjuntos e assinatura de acordos industriais. Em 2025, a empresa turca Havelsan e a Organização Árabe para a Industrialização do Egito assinaram memorando para produção de drones em território egípcio.


A analista Kristin Ronzi, da empresa RANE, afirmou ao The New Arab que os exercícios conjuntos refletem “o fortalecimento dos laços bilaterais em meio ao aquecimento das relações” entre Ancara e Cairo. Ela descreveu o processo como parte de uma estratégia de “reaproximação com países da região” por parte da Turquia e de retorno do Egito a uma agenda de cooperação focada em segurança e economia.


Ronzi também registrou que persistem divergências entre os dois governos, incluindo disputas sobre delimitação marítima no Mediterrâneo Oriental e posições distintas no Chifre da África, fatores que podem limitar a expansão da cooperação.


O Egito tem adotado uma política de diversificação de fornecedores militares para reduzir dependência de um único país. Em 2018, o governo egípcio chegou a negociar caças russos Su-35, mas o acordo foi interrompido após risco de sanções dos Estados Unidos. Em 2025, o Egito realizou exercício aéreo conjunto com a China, envolvendo caças J-10C, em sua primeira operação desse tipo com Pequim.


Nicolas Heras, do New Lines Institute, afirmou que o Egito busca consolidar “parcerias de segurança equilibradas” para ampliar capacidade de dissuasão regional. Ele declarou que o país não pretende depender exclusivamente de sistemas dos Estados Unidos em cenários de conflito.


Segundo Ronzi, a cooperação com a Turquia tende a gerar menos tensão com Washington do que acordos com Pequim, devido à posição turca dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Ela também afirmou que acordos de produção conjunta ampliam a capacidade industrial militar egípcia, embora sistemas turcos ainda não substituam integralmente equipamentos ocidentais.


As análises apontam possibilidade de expansão de cooperação entre Egito, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão em arranjos de defesa regional. Ao mesmo tempo, divergências políticas e disputas territoriais permanecem como fatores de limitação estrutural.


Em Israel, a intensificação da cooperação militar entre Egito e Turquia foi registrada com atenção por autoridades políticas e militares. Declarações públicas mencionam preocupação com o fortalecimento das capacidades militares turcas e egípcias, especialmente no campo de drones e aviação.


Em fevereiro, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou que “o exército egípcio está se fortalecendo e precisamos monitorá-lo”. A avaliação ocorre em paralelo ao aumento de exercícios conjuntos entre Egito e Turquia e à expansão de programas industriais militares.


Ronzi afirmou que a cooperação bilateral pode intensificar tensões já existentes na região, embora não indique alteração imediata nas relações de segurança entre Egito e Israel, que mantêm coordenação em temas de fronteira e energia.


O desenvolvimento da cooperação militar entre Egito e Turquia ocorre em paralelo à expansão de acordos industriais, exercícios conjuntos e reorientação de estratégias de aquisição de armamentos por ambos os países, com participação de fornecedores da Europa, Rússia, China e Estados Unidos em diferentes níveis da cadeia militar.

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