Reino Unido e França fecham acordo de três anos para reforçar combate a travessias de refugiados pelo Canal da Mancha
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França e Reino Unido firmaram um acordo de três anos para intensificar a repressão à migração irregular pelo Canal da Mancha. O plano prevê aumento expressivo da presença policial francesa na costa e financiamento britânico condicionado a resultados. O acordo surge em meio a pressões políticas internas no Reino Unido e ao endurecimento das políticas migratórias europeias. Dados oficiais indicam que mais de 41 mil pessoas cruzaram o canal em 2025, enquanto dezenas morreram na travessia. A iniciativa aprofunda a externalização do controle migratório e reforça mecanismos de contenção nas fronteiras europeias.

Segundo documento do Ministério do Interior francês obtido pela AFP em 23 de abril de 2026, a França se comprometeu a ampliar em mais de 50% os esforços de fiscalização costeira para impedir que migrantes e solicitantes de asilo deixem seu território rumo ao Reino Unido. O plano prevê a mobilização de até 1.400 policiais até 2029, além da expansão de recursos tecnológicos, incluindo drones, helicópteros e ferramentas digitais para monitoramento e interceptação de embarcações.
Em contrapartida, o Reino Unido se comprometeu a destinar até 766 milhões de euros - cerca de 897 milhões de dólares - ao financiamento das operações francesas. No entanto, aproximadamente um quarto desse montante estará condicionado ao cumprimento de metas operacionais, com repasses vinculados à eficácia das medidas adotadas. O documento estabelece que, caso não haja “resultados suficientes, baseados em uma avaliação anual conjunta”, os recursos poderão ser redirecionados para outras ações.
O acordo representa a renovação do Tratado de Sandhurst, firmado originalmente em 2018 e prorrogado em 2023, cuja vigência expiraria em 2026. Ao longo dos últimos meses, Londres pressionou Paris para endurecer a fiscalização, acusando o governo francês de falhar na contenção das travessias. O tema tornou-se central na política interna britânica, com setores conservadores exigindo medidas mais rígidas para conter a chegada de migrantes.
Mesmo sem a liberação integral dos recursos condicionais, a contribuição fixa britânica de 580 milhões de euros representa um aumento de 40 milhões em relação ao acordo anterior. A exigência de contrapartidas operacionais reflete a tentativa do governo britânico de impor maior controle sobre o uso dos recursos públicos destinados à contenção migratória fora de seu território.
O ministro do Interior francês, Laurent Nunez, e a ministra do Interior britânica, Shabana Mahmood, devem apresentar detalhes adicionais do acordo em 24 de abril de 2026, durante visita a um centro de detenção em construção em Loon-Plage, próximo a Dunquerque. A instalação será utilizada para abrigar pessoas sujeitas a deportação, integrando a estrutura de contenção que sustenta o novo pacto bilateral.
O endurecimento das medidas ocorre em um momento politicamente sensível para o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, que enfrenta pressão crescente da direita anti-imigração e disputas eleitorais internas. O cenário inclui a ascensão de forças políticas como o Reform UK, liderado por Nigel Farage, e o avanço de partidos ambientalistas à esquerda, fragmentando a base eleitoral trabalhista às vésperas das eleições locais de maio.
Além do contexto político, os dados oficiais reforçam a dimensão do fenômeno migratório. Segundo autoridades britânicas, 41.472 pessoas chegaram ao Reino Unido em pequenas embarcações em 2025, o segundo maior número desde o início dos registros em 2018. No mesmo período, ao menos 29 migrantes morreram no Canal da Mancha, de acordo com levantamento da AFP com base em fontes oficiais francesas e britânicas.
O documento do Ministério do Interior francês também destaca que o período entre o início do verão e o fim da estação concentra o maior número de travessias, justificando a intensificação dos recursos nesse intervalo. Entre as práticas combatidas estão os chamados “barcos táxi”, utilizados para transportar migrantes a partir da costa francesa.
De acordo com o direito internacional do mar, uma vez que as embarcações deixam a costa, as autoridades têm limitações legais para intervir, podendo agir prioritariamente em operações de resgate para evitar afogamentos. Essa restrição jurídica tem sido utilizada para justificar o reforço das ações preventivas ainda em território francês.
As autoridades francesas afirmaram que, desde o início de 2026, o número de chegadas ao Reino Unido caiu pela metade em comparação com o mesmo período de 2025. O Ministério do Interior francês também informou que cerca de 480 contrabandistas foram presos ao longo de 2025, como parte das operações contra redes de migração irregular.


































