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Relatório aponta uso de violência sexual no deslocamento de palestinos na Cisjordânia

Um relatório divulgado em 20 de abril de 2026 pelo West Bank Protection Consortium (WBPC) documenta o uso sistemático de violência sexual como instrumento de expulsão de comunidades palestinas na Cisjordânia ocupada. O documento registra ao menos 16 casos de violência sexual ligada a colonos ilegais e forças israelenses, indicando subnotificação generalizada. Mais de 70% das famílias deslocadas apontaram ameaças contra mulheres e crianças como fator decisivo para abandonar suas terras. A pesquisa também revela que 84% das famílias sofreram violência direta de colonizadores, combinada a pressões estruturais contínuas.


Mulher Palestina confronta soldados da Ocupação ©EL PAIS
Mulher Palestina confronta soldados da Ocupação ©EL PAIS
Intitulado Sexual Violence and Forcible Transfer in the West Bank, o estudo sustenta que a violência sexual não ocorre de forma isolada, mas integra um sistema de coerção que molda decisões de deslocamento forçado. Segundo o documento, “essas práticas operam dentro de um ambiente coercitivo que contribui para a transferência forçada de comunidades palestinas”, afetando diretamente a vida cotidiana, a mobilidade e a segurança das populações sob ocupação. O WBPC afirma que “as evidências mostram como a violência sexualizada é usada para pressionar comunidades, influenciar decisões sobre permanecer ou deixar suas casas e alterar padrões de vida”.

O relatório destaca que, embora 16 casos tenham sido formalmente documentados, a dimensão real do fenômeno é significativamente maior devido ao medo, à estigmatização e à ausência de mecanismos de denúncia eficazes. Os abusos são descritos como instrumentos que “penetram o espaço doméstico, fragmentam a vida familiar e tornam insustentável a permanência civil”, configurando uma estratégia deliberada de deslocamento.


A violência sexual é apresentada como parte de um sistema mais amplo de pressões cumulativas na Cisjordânia ocupada. Entre os fatores identificados estão ataques de colonos, operações militares, restrições de circulação, colapso econômico e medidas administrativas que afetam terras e moradias. Desde 2023, o deslocamento forçado se intensificou, com comunidades inteiras esvaziadas e milhares de pessoas expulsas de suas residências.


O relatório enfatiza que “a transferência forçada não requer força física”, ocorrendo quando as condições impostas eliminam qualquer possibilidade real de permanência. Nesse contexto, a violência sexual assume papel central por atingir diretamente estruturas familiares e normas sociais. Mais de 70% das famílias entrevistadas indicaram que ameaças contra mulheres e crianças, especialmente de natureza sexual, foram determinantes na decisão de fugir.


Os dados apresentados também apontam sinais clássicos de escalada de atrocidades, como normalização da violência, discriminação sistemática e ausência de responsabilização. A pesquisa indica que a impunidade, frequentemente garantida pela inação das forças israelenses, contribui para a repetição e intensificação dos abusos.


Um dos aspectos mais alarmantes identificados é a mudança no local das agressões, que passam a ocorrer dentro de casas e espaços privados. Testemunhos de campo relatam que o comportamento de colonos se tornou “cada vez mais sexualizado”, incluindo toques não consentidos, assédio físico e gestos obscenos com o objetivo de intimidar e humilhar. O relatório observa que “o assédio sexual passa a integrar o ambiente de ameaça”, sinalizando uma escalada qualitativa nas práticas de coerção.


Mulheres e crianças são os principais alvos, frequentemente em momentos de ausência dos homens da família. Um dos depoimentos citados afirma que “havia uma regra não escrita de que mulheres e crianças eram intocáveis. Isso simplesmente não existe mais”. Esse padrão tem provocado reconfigurações profundas na vida familiar, com vigilância constante, medo permanente e restrições severas à mobilidade.


Em diversos casos, a violência sexual representou o ponto de ruptura que levou ao deslocamento definitivo. Um relato incluído no documento afirma: “Este foi o último incidente antes de partirmos. Foi a gota d’água. Esse método nos forçou a deixar nossa terra em troca da proteção das mulheres”.


O estudo descreve o deslocamento como um processo gradual, resultado da acumulação de pressões. Famílias adotam estratégias extremas para lidar com o ambiente hostil, como restringir a circulação de mulheres, dividir núcleos familiares e até recorrer a casamentos precoces. Pelo menos seis famílias relataram ter casado filhas entre 15 e 17 anos para retirá-las do ambiente de risco.


Ao mesmo tempo, homens e meninos enfrentam aumento de detenções, violência física e humilhação, aprofundando a desestruturação social. Com o tempo, essas pressões convergem, eliminando alternativas e levando à expulsão forçada.


As consequências após o deslocamento são descritas como devastadoras. Segundo o relatório, 90% das mulheres relataram aumento significativo de estresse psicológico e trauma, enquanto 63% observaram níveis elevados de medo e ansiedade entre crianças. No plano econômico, 87% das mulheres perderam todas as fontes de renda, refletindo a destruição de meios de subsistência ligados à terra e à organização comunitária.


Além das perdas materiais, o documento aponta para a desintegração de estruturas sociais, com famílias realocadas em ambientes precários, sem acesso a serviços básicos ou proteção institucional.


Do ponto de vista jurídico, o WBPC afirma que os padrões documentados podem configurar transferência forçada, conforme o direito internacional humanitário. O relatório reitera que “a transferência forçada não requer força física. Ela ocorre quando as condições coercitivas não deixam aos civis outra opção real senão fugir”. Também destaca que, quando a violência sexual contribui para essas condições, ela se torna elemento central na caracterização legal do crime.


O documento levanta ainda a questão da responsabilização, especialmente em casos em que os abusos ocorrem na presença de forças israelenses sem qualquer intervenção, reforçando o padrão de impunidade que sustenta a continuidade dessas práticas.

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