UNICEF confirma sexta morte infantil em Gaza em meio a enchentes, frio extremo e colapso humanitário
- @clandestino_jornal

- 4 de jan.
- 4 min de leitura
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) confirmou a morte de mais uma criança na Faixa de Gaza em dezembro, elevando para seis o número de óbitos infantis associados a condições extremas de inverno e à guerra. A vítima, um menino de sete anos, morreu após enchentes atingirem um acampamento improvisado de deslocados, em um contexto de grave crise humanitária.

Uma sexta criança morreu na Faixa de Gaza em dezembro, segundo informou o UNICEF em 31 de dezembro de 2025. A agência atribui as mortes às condições de vida cada vez mais degradadas no enclave, marcadas por chuvas intensas, temperaturas congelantes, falta de abrigos adequados e os impactos contínuos da guerra entre Israel e o Hamas.
A vítima mais recente foi identificada como Ata Mai, de sete anos, que morreu afogado em 27 de dezembro após fortes inundações atingirem um acampamento improvisado para deslocados internos na região de Sudaniyeh, no noroeste da Cidade de Gaza. O local abrigava cerca de 40 tendas montadas em área vulnerável a alagamentos.
De acordo com o UNICEF, Ata desapareceu durante a tarde, enquanto a chuva castigava o acampamento. Equipes de busca e resgate, com apoio de máquinas pesadas, iniciaram as operações imediatamente, mas o corpo da criança só foi localizado horas depois, já sem vida.
O diretor regional do UNICEF para o Oriente Médio e Norte da África, Edouard Beigbeder, afirmou que a morte da criança evidencia a situação extrema enfrentada pela população deslocada. Segundo ele, equipes que visitaram os campos relataram cenas de devastação, com tendas arrancadas pelo vento ou completamente destruídas pelas chuvas.
A agência informou ainda que os irmãos de Ata têm menos de dez anos de idade e que a família já havia perdido a mãe durante o conflito. O UNICEF está prestando apoio emergencial à família, incluindo a distribuição de cobertores, lonas e assistência psicossocial, além de avaliar outras necessidades imediatas.
Além de Ata Mai, pelo menos outras cinco crianças morreram em Gaza ao longo de dezembro em decorrência da exposição ao frio intenso, à falta de abrigo seguro e às más condições sanitárias, segundo o UNICEF. Crianças subnutridas e outros grupos vulneráveis estão entre os mais afetados.
A crise de abrigo é considerada uma das mais graves. Mais de 1,9 milhão de pessoas seguem deslocadas internamente, muitas vivendo em tendas danificadas ou estruturas improvisadas. As famílias enfrentam chuvas prolongadas, ventos fortes e temperaturas próximas de zero, enquanto a entrada de suprimentos de abrigo permanece limitada.
Em atualização recente, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) confirmou novas inundações repentinas, especialmente em áreas costeiras, regiões mais baixas e locais onde famílias vivem em tendas e estruturas precárias. Em áreas como Al Mawasi, em Khan Younis, a água do mar voltou a invadir os acampamentos, tornando muitos abrigos inabitáveis.
As chuvas forçaram diversas famílias, muitas delas deslocadas repetidas vezes pela guerra, a buscarem terrenos mais altos após perderem pertences encharcados. Ventos intensos também destruíram ou danificaram gravemente um grande número de tendas, agravando a exposição da população às intempéries.
Segundo o OCHA, desde o início de dezembro, pelo menos 18 edifícios residenciais desabaram completamente em Gaza, causando mortes e grandes perdas materiais. Outros 110 prédios sofreram danos estruturais perigosos, representando risco imediato para milhares de pessoas que vivem nas proximidades.
O UNICEF alertou que a destruição quase total das moradias e da infraestrutura de água e esgoto deixou as famílias extremamente vulneráveis às condições climáticas. Estima-se que cerca de 100 mil famílias tenham sido diretamente afetadas por uma semana de chuvas intensas, ventos fortes e frio extremo.
As agências humanitárias alertam que a situação pode se agravar ainda mais, diante da previsão de novas chuvas e queda adicional das temperaturas. O aumento das enchentes elevou também a demanda por combustível, essencial para o bombeamento de esgoto e drenagem de águas pluviais. A lagoa Sheikh Radwan, por exemplo, registrou elevação do nível da água, exigindo cerca de 7 mil litros de combustível por dia para evitar transbordamentos.
Em meio à crise, o UNICEF informou que segue atuando em parceria com organizações humanitárias locais e internacionais, com ações como instalação de tubulações temporárias de água, distribuição de itens de higiene, cobertores, lonas e kits de dignidade, além de garantir acesso a latrinas e trabalhar na limpeza de redes de esgoto e drenagem.
Os esforços humanitários, no entanto, enfrentam novos riscos. A partir de 1º de janeiro, cerca de 37 organizações internacionais de ajuda podem perder suas licenças para operar em Gaza devido a um novo sistema de registro imposto por Israel. Segundo a ONU, a medida pode levar à suspensão em larga escala das operações humanitárias no território.
Agências das Nações Unidas alertam que, caso as ONGs internacionais sejam forçadas a interromper suas atividades, uma em cada três unidades de saúde em Gaza poderá fechar. Em declaração conjunta, as organizações afirmaram que o novo sistema impõe critérios considerados vagos, arbitrários e politizados, incompatíveis com princípios humanitários e obrigações legais internacionais.
O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, classificou a possível suspensão das agências de ajuda como “ultrajante” e alertou que a medida agrava uma situação já considerada insustentável para a população civil de Gaza. Ele instou países com influência diplomática a pressionarem Israel para garantir o acesso imediato e sem entraves à ajuda humanitária.
Segundo Türk, as autoridades israelenses têm a obrigação, conforme o direito internacional, de assegurar o fornecimento de itens essenciais à vida da população de Gaza, incluindo água, alimentos, abrigo e assistência humanitária, em meio a uma das mais graves crises humanitárias enfrentadas pela região nas últimas décadas.



































