Vulnerabilidade reduz altura média de crianças indígenas e nordestinas, aponta estudo
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A desigualdade social brasileira já se manifesta nos corpos das crianças antes dos 10 anos de idade, afetando crescimento e saúde. Estudo com dados de 6 milhões de crianças brasileiras mostra que indígenas e moradores do Nordeste apresentam altura média inferior às referências da Organização Mundial da Saúde. A pesquisa, liderada por especialistas do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde e publicada em 22 de janeiro de 2026 na revista JAMA Network, também identificou alta prevalência de sobrepeso no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. As evidências foram divulgadas em 19 de fevereiro de 2026 pela Agência Brasil.

A análise reuniu informações do Cadastro Único para Programas Sociais, do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), acompanhando crianças desde o nascimento até os 9 anos. Segundo o pesquisador Gustavo Velasquez, do Cidacs/Fiocruz Bahia, o estudo cruzou condições de saúde e indicadores socioeconômicos para avaliar peso, estatura e estado nutricional com base nas curvas de crescimento da OMS. “Todos os dados são seguros e altamente anonimizados. Não há identificação das pessoas que estão lá. São dados administrativos que se usa para pesquisas em saúde”, afirmou.
Os resultados mostram que a média de altura das crianças brasileiras, em geral, acompanha os parâmetros internacionais, mas com forte desigualdade regional e étnica. Crianças indígenas e de estados do Nordeste apresentam maior incidência de baixa estatura em relação à referência internacional, reflexo de dificuldades persistentes no acesso à alimentação adequada, à atenção básica de saúde e a condições ambientais seguras. Esses fatores, combinados a níveis elevados de doenças e à pobreza estrutural, compõem um cenário de violação cotidiana do direito à infância.
Ao mesmo tempo, o país vive uma transição nutricional marcada por excesso de peso. Os dados mostram prevalência de sobrepeso de 32,6% no Sul, 26,6% no Sudeste e 28,1% no Centro-Oeste, com taxas de obesidade de até 14,4% nessas regiões. No Norte e Nordeste, o sobrepeso também cresce, atingindo 20% e 24%, respectivamente, evidenciando que a vulnerabilidade social não protege contra a obesidade, mas expõe a dietas de baixa qualidade nutricional.
Velasquez explicou que, embora a média de peso acompanhe ou supere as referências internacionais, parte das crianças já apresenta valores considerados anormais. “Esse crescimento linear está adequado, mas o peso está começando, em algumas regiões, a ser muito acima da norma que a gente espera”, disse. Ele destacou ainda que o risco de obesidade está ligado às condições de gestação, ao acompanhamento pós-natal e à qualidade da alimentação ao longo da infância.
A pesquisa aponta a expansão de alimentos ultraprocessados como um dos principais determinantes do aumento de peso no país. “Nós temos uma invasão agora de alimentos ultraprocessados, que são considerados como um dos grandes determinantes do aumento de peso, não somente nas crianças, mas em todas as populações”, afirmou o pesquisador. A presença massiva desses produtos, distribuídos por cadeias globais dominadas por grandes corporações, revela o papel da indústria alimentar na reprodução de padrões de consumo que aprofundam desigualdades sanitárias.
Embora a obesidade infantil no Brasil ainda esteja em nível intermediário em comparação com outros países da América Latina — com índices mais elevados no Chile, Peru e Argentina —, o estudo indica tendência de crescimento e alerta para impactos futuros na saúde pública. Ao mesmo tempo, a coexistência de baixa estatura em populações vulneráveis e excesso de peso em regiões mais ricas revela um país dividido entre fome qualitativa e excesso calórico.




















































