A aposta de Milei em Israel e Trump que pode isolar a Argentina
- www.jornalclandestino.org

- há 13 horas
- 4 min de leitura
O presidente argentino Javier Milei ampliou o alinhamento político da Argentina com Benjamin Netanyahu e o presidente dos Estados Unidos Donald Trump em meio à escalada no Oriente Médio. Declarações de Milei sobre Irã, Palestina e Israel provocaram rejeição dentro da própria Argentina, segundo pesquisas citadas no debate público do país. Dados de institutos argentinos mostram oposição majoritária ao envolvimento da Argentina em agendas militares e diplomáticas ligadas aos interesses estadunidenses e israelenses.

Durante discurso realizado em março de 2026 na Universidade Yeshiva, nos Estados Unidos, Javier Milei se definiu como “o presidente mais sionista do mundo”. Na mesma intervenção, classificou o Irã como inimigo da Argentina e citou os atentados contra a embaixada israelense em Buenos Aires, em 1992, e contra a AMIA, em 1994. Milei justificou a posição com base no que chamou de “aliança estratégica” entre Argentina, Israel e Estados Unidos.
A formulação marca mudança na política externa argentina e aproxima Buenos Aires da linha política construída por Donald Trump e Benjamin Netanyahu. O governo argentino passou a adotar posições ligadas ao discurso de confronto contra o Irã e de alinhamento diplomático com Israel em organismos internacionais. O movimento ocorre em paralelo à dependência econômica argentina de acordos financeiros negociados com Washington.
Em 2025, o governo dos Estados Unidos aprovou programa de swap cambial de US$ 20 bilhões para auxiliar a estabilização do peso argentino antes das eleições legislativas. O acordo fortaleceu a relação política entre Milei e Donald Trump. O presidente argentino participou de encontros conservadores ligados ao trumpismo nos Estados Unidos e recebeu de Trump a definição de “presidente favorito”, segundo relatos citados no texto original.
A aproximação incluiu mudanças na posição histórica da Argentina sobre Palestina e Jerusalém. O governo argentino anunciou a transferência da embaixada argentina em Israel para Jerusalém em 2026, rompendo com a posição diplomática adotada anteriormente pelo país sobre o status internacional da cidade. Em maio de 2024, a Argentina votou contra resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas que apoiava a adesão plena da Palestina à ONU. Em setembro do mesmo ano, Buenos Aires votou contra resolução que exigia o fim da ocupação israelense dos territórios palestinos.
As votações romperam com a política mantida durante décadas pela diplomacia argentina em defesa de solução negociada de dois Estados. O governo Milei também declarou a Força Quds iraniana como organização terrorista em janeiro de 2026 e classificou o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica da mesma forma em março.
Durante visita a Israel em abril, Milei afirmou que a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã era “a coisa certa a fazer”. O presidente argentino passou a apresentar o alinhamento argentino como parte de uma luta internacional contra o terrorismo. O governo também promoveu, ao lado de Netanyahu, os chamados “Acordos de Isaac”, iniciativa voltada à ampliação das relações israelenses com países latino-americanos.
Pesquisas de opinião citadas no texto mostram resistência interna à política externa de Milei. Levantamento AtlasIntel/Bloomberg realizado em março de 2026 indicou que 64% dos argentinos avaliaram como “muito negativas” as declarações de Milei sobre o Irã e sobre o apoio à ofensiva liderada por Estados Unidos e Israel. Apenas 19,9% consideraram as falas positivas ou muito positivas.
O mesmo levantamento mostrou rejeição à participação argentina no chamado “Conselho de Paz”, estrutura ligada à proposta de Donald Trump para Gaza. Segundo os dados, 57,5% dos entrevistados declararam oposição total à entrada da Argentina no organismo. Apenas 23,7% apoiaram integralmente a iniciativa.
Outra pergunta da pesquisa tratou do envio dos Capacetes Brancos argentinos para força internacional de estabilização. O levantamento apontou 58,3% de rejeição à medida e 32,7% de apoio.
Pesquisa do instituto Zuban Córdoba mostrou que 72,7% dos argentinos rejeitam uma ofensiva envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã. Apenas 14,2% apoiaram esse cenário. Entre eleitores de Milei, 53,4% declararam oposição à participação argentina em uma ofensiva militar. O levantamento também mostrou que 66,4% dos entrevistados consideram que a posição internacional de Milei não representa o país.
O debate expõe divisão entre a estratégia de alinhamento automático adotada pelo governo argentino e setores da sociedade que mantêm tradição de resistência à tutela política estadunidense sobre a América Latina. O texto cita correntes do peronismo, da esquerda e setores nacionalistas argentinos como grupos que diferenciam cooperação diplomática e combate ao terrorismo de adesão política às ofensivas militares promovidas por Washington e Tel Aviv.
O artigo afirma que Milei converteu temas ligados aos atentados de 1992 e 1994 em instrumento de alinhamento ideológico com Donald Trump e Benjamin Netanyahu. O texto sustenta que a política externa argentina passou de uma posição cautelosa para participação simbólica em disputas externas sem capacidade concreta de interferência sobre o equilíbrio político e militar do Oriente Médio.
O material também aponta que a aproximação serve aos interesses diplomáticos de Netanyahu em meio ao aumento das denúncias internacionais sobre o genocídio em Gaza e às tentativas do governo dos Estados Unidos de manter apoio internacional às ações israelenses.



































