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Em África, 62% das vítimas de tráfico humano são crianças

Crianças representam 62% das vítimas de tráfico humano identificadas na África, segundo relatório divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) em 2 de junho. O documento aponta que grupos armados utilizam o tráfico de menores para ampliar efetivos e sustentar operações militares em zonas de conflito. A prática foi registrada em pelo menos 12 países africanos e afeta mais de 5 mil crianças.


O relatório do Unodc informa que entre 80 e 90 grupos armados estavam envolvidos em atividades de tráfico e exploração de crianças ligadas a conflitos armados no continente africano durante 2023. Segundo a agência da ONU, o deslocamento forçado provocado por guerras, intervenções militares, disputas por recursos e crises políticas cria condições para o recrutamento de menores, ao mesmo tempo em que enfraquece mecanismos de proteção social e institucional.


Os dados apresentados pela agência mostram que uma em cada três vítimas de tráfico humano identificadas no mundo é criança. Na África, essa proporção alcança 62% das vítimas registradas. O relatório associa essa realidade à pobreza, à desestruturação familiar provocada por conflitos armados e à fragilidade dos sistemas estatais de proteção infantil em regiões submetidas a ciclos de violência.


Jacob Kattin, agente da Polícia Judiciária da República Centro-Africana, descreveu o método utilizado pelos grupos armados para recrutar menores. “Os rebeldes vão às aldeias e levam crianças”, declarou. Segundo ele, “prometem-lhes dinheiro, poder e proteção, mas acabam por ficar presos em campos, a transportar armas e obrigados a combater”.


A investigação do Unodc aponta que o recrutamento de menores ocorre por meio de sequestros, coerção, promessas financeiras e exploração da vulnerabilidade social criada por deslocamentos populacionais. Em diversas áreas afetadas por confrontos armados, famílias são forçadas a abandonar suas casas, enquanto crianças ficam expostas à ação de grupos que operam fora de qualquer estrutura legal.


Após serem incorporadas aos grupos armados, as crianças são utilizadas em tarefas ligadas diretamente às operações militares. O relatório registra casos de menores enviados para linhas de frente, empregados no transporte de armas e munições e utilizados para recolher informações em áreas sob combate. Essas atividades colocam crianças em situações de risco permanente de morte ou ferimentos.


O documento também registra consequências que permanecem após o desligamento dos menores das organizações armadas. Entre os impactos relatados estão lesões físicas, traumas psicológicos, ansiedade, depressão e processos de exclusão social. Muitos dos menores recrutados enfrentam dificuldades para retornar à vida comunitária e ao sistema educacional após anos submetidos à violência.


No Sudão do Sul, um dos países citados no relatório, milhares de crianças foram recrutadas à força ao longo dos anos de guerra interna. O Unodc destaca iniciativas voltadas à reintegração desses menores, mas afirma que a dimensão dos danos produzidos pelo recrutamento exige acompanhamento prolongado.


Wani Francis Lasu, integrante da Força-Tarefa Nacional de Combate ao Tráfico Humano do Sudão do Sul, afirmou que a libertação das crianças representa apenas uma etapa do processo. “A recuperação não se resume à libertação. Trata-se de reconstruir uma vida”, declarou. Segundo ele, “as crianças precisam de apoio psicológico, educação e competências para reconstruírem o seu futuro. Sem isso, o ciclo continua”.


O relatório identifica ainda a ligação entre tráfico humano, contrabando de migrantes e falsificação de documentos. Essas redes operam em regiões marcadas pela presença de fronteiras porosas, deslocamentos populacionais e ausência de mecanismos estatais de fiscalização.


De acordo com o Unodc, a aplicação das convenções internacionais destinadas ao combate ao tráfico infantil enfrenta obstáculos em territórios submetidos a conflitos armados. A agência afirma que a continuidade da violência reduz a capacidade operacional das instituições responsáveis pela proteção de direitos e dificulta a investigação de crimes relacionados ao recrutamento de menores.

O documento acrescenta que o medo de represálias impede denúncias por parte das populações afetadas. Em áreas controladas por grupos armados, testemunhas e familiares enfrentam riscos ao denunciar violações de direitos humanos ou colaborar com autoridades encarregadas da repressão ao tráfico de pessoas.


Jacob Kattin afirmou que existe uma relação direta entre a permanência dos conflitos e a vulnerabilidade infantil. “Onde o conflito persiste, as crianças estão em risco”, declarou. Segundo o investigador, “são arrastadas para sistemas de violência que não escolheram, forçadas a crescer demasiado cedo e deixadas a suportar as consequências muito depois de os combates terminarem”.

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