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Garimpeiros acusam seguranças de mineradora ligada à Tesla de tortura no Congo

Garimpeiros artesanais acusam seguranças da mineradora KCC, controlada pela Glencore, de torturas e ataques com cães em Kolwezi, na República Democrática do Congo. Relatos colhidos em março de 2026 descrevem espancamentos, mordidas e restrições violentas ao acesso às minas. A empresa fornece cobalto à Tesla, alvo de denúncia judicial apresentada em 19 de agosto de 2025 por advogados sediados em Washington. A RDC concentra 54% das reservas globais do minério, essencial para baterias de veículos elétricos. Em meio à expansão desse mercado, trabalhadores locais relatam fome, desemprego estrutural e repressão sistemática.


Garimpeiros congoleses são alvos de mordidas dos cachorros dos seguranças da KCC, mineradora multinacional com atuação em Kolwezi. Foto: Pedro Borges/Alma Preta
Garimpeiros congoleses são alvos de mordidas dos cachorros dos seguranças da KCC, mineradora multinacional com atuação em Kolwezi. Foto: Pedro Borges/Alma Preta

Enviado especial à cidade de Kolwezi, no sudeste congolês, o levantamento expõe um padrão recorrente de violência contra garimpeiros que tentam acessar áreas controladas pela Kamoto Copper Company (KCC), subsidiária da multinacional suíça Glencore. Prince, de 25 anos, exibe cicatrizes no rosto e nas pernas e responsabiliza diretamente os seguranças da empresa. “O que resta para o congolês é realmente morrer”, afirma. Ele relata ter sido espancado após cair durante uma fuga e, posteriormente, atacado por cães que o impediram de continuar correndo.


Outro trabalhador, identificado como Palmiers, atua há mais de nove anos na mineração artesanal e sustenta filhos com a coleta diária de cobalto e cobre. Ele descreve uma rotina marcada pela clandestinidade e pelo medo constante. “A gente entra nas minas até determinada área, e se a gente vê os seguranças, a gente começa a correr”, relata. Em 2019, após escapar inicialmente de uma abordagem, foi alcançado por cães de guarda e mordido. Segundo ele, as agressões não apenas ferem fisicamente, mas interrompem o trabalho por dias, agravando a insegurança alimentar.


Kolwezi é considerada a principal região produtora de cobalto do planeta. Dados de 2025 do U.S. Geological Survey indicam que a RDC detém 54% das reservas mundiais do mineral. A exploração intensiva ocorre em larga medida sob controle de multinacionais, enquanto trabalhadores locais operam em condições precárias. Nas minas da KCC, cercadas por muros e vigilância armada, garimpeiros conseguem extrair entre 30 e 40 quilos por dia, vendidos por valores entre 150 mil e 500 mil francos congoleses (R$ 349 a R$ 1.115), frequentemente divididos entre dois ou três trabalhadores.


A intensificação da repressão coincide com a suspensão oficial da mineração artesanal, decretada em 19 de dezembro de 2025 pelo ministro de Minas, Louis Watum Kabamba. A medida retirou qualquer respaldo legal para a atividade, empurrando milhares de trabalhadores para operações clandestinas em áreas controladas por corporações estrangeiras. Kabamba anunciou a criação de 64 zonas reguladas na província de Lualaba, mas até o momento não há evidências de implementação efetiva dessas áreas.


Em resposta às denúncias, a Glencore afirmou, em nota, que seus seguranças são treinados conforme padrões de direitos humanos e diretrizes das Nações Unidas. A empresa declarou ainda manter programas externos de monitoramento em Kolwezi. No entanto, relatório do Business and Human Rights Resource Centre, intitulado “Monitoring the Energy Transition Minerals”, registra 70 acusações de abusos contra a Glencore entre 2010 e 2022, incluindo violações trabalhistas e ambientais.


Um segurança da KCC, entrevistado sob anonimato, confirmou o uso sistemático de força contra garimpeiros e descreveu confrontos frequentes. Segundo ele, há dois perfis de trabalhadores: aqueles que tentam entrar com violência e os que oferecem propina para acessar as minas. “Na maior parte dos casos, acaba em briga. Sempre termina em violência”, afirmou. Ele admite que, diante de grupos numerosos — entre 20 e 30 garimpeiros —, guardas frequentemente aceitam dinheiro para evitar confrontos. “Se você não aceitar, vai terminar em violência”, declarou.


Apesar dos confrontos nas minas, o mesmo segurança relata que fora do ambiente de trabalho a convivência é normal. “Quando estamos trabalhando, aí é diferente”, disse, evidenciando a naturalização da violência como parte estrutural da atividade.


O cobalto extraído nessas condições integra cadeias globais de produção, especialmente na indústria de veículos elétricos. A KCC é uma das fornecedoras da Tesla, que mantém contrato para aquisição de 6 mil toneladas anuais do mineral. Em 19 de agosto de 2025, a organização International Rights Advocates (IRA) apresentou denúncia contra a empresa, alegando que sua cadeia de suprimentos está vinculada a trabalho forçado, destruição ambiental e abusos sistemáticos de direitos humanos.


“Anos de mineração em prol das empresas de tecnologia criaram um ‘ambiente de catástrofe’ na República Democrática do Congo”, afirma o documento da IRA. A denúncia acrescenta que os benefícios tecnológicos não alcançam a população local: “O povo congolês não está dirigindo carros elétricos ou aproveitando um ambiente saudável. Ao invés disso, eles são penalizados por uma água poluída que os deixa mais doentes e pobres”.

A organização, baseada em Washington, busca que a Justiça do Distrito de Columbia declare ilegais as práticas da Tesla, argumentando que a empresa viola sua própria política de conduta e normas locais de proteção ao consumidor. A ação destaca contradições entre o discurso corporativo e a realidade da cadeia produtiva. “A Tesla alega combater o trabalho forçado, afirmando que o ‘tratamento ético de todas as pessoas’ é central à sua missão”, aponta o texto, que em seguida acusa a empresa de omitir práticas abusivas de fornecedores.


Outras empresas fornecedoras também foram citadas na denúncia, incluindo companhias chinesas como Guizhou CNGR, Hunan CNGR e Huayou Cobalt. A Tesla não respondeu aos questionamentos sobre as acusações, nem sobre a continuidade da compra de cobalto da Glencore.


O crescimento acelerado do mercado de veículos elétricos intensifica a demanda por minerais estratégicos. Dados da Benchmark Mineral Intelligence indicam que, em 2025, foram vendidos 20,7 milhões de carros elétricos no mundo, alta de 20% em relação ao ano anterior. A Europa registrou aumento de 33%, a China 17% e os Estados Unidos 1%. No Brasil, o crescimento foi de 30%.


A denúncia da IRA sustenta que consumidores estadunidenses são induzidos a erro ao acreditar que a cadeia produtiva da Tesla é ética e sustentável. “Um consumidor médio não poderia esperar que a rede de fornecedores está conectada a práticas como trabalho forçado e abusos de direitos humanos”, afirma o documento, que acusa a empresa de ocultar deliberadamente as condições reais de extração do cobalto utilizado em seus veículos.

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