Flávio Bolsonaro reforça vínculo com policiais e relativiza debate sobre milícias
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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reforçou sua vinculação política com as polícias militares durante entrevista publicada em 10 de abril de 2026. A fala expõe uma estratégia distinta da trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro, historicamente associado às Forças Armadas. Ao longo de duas horas de conversa no podcast Inteligência Ltda., o parlamentar reiterou apoio irrestrito a agentes de segurança estaduais, inclusive em casos controversos. Declarações sobre milícias, uso da força e operações policiais indicam alinhamento com práticas de endurecimento penal. O posicionamento ocorre em meio à reorganização das bases eleitorais que devem influenciar a disputa presidencial brasileira.

Durante a entrevista, Flávio Bolsonaro descreveu de forma direta a divisão de atuação política dentro de sua família. “Meu pai sempre teve como deputado um público muito focado de militares das Forças Armadas, principalmente inativos e pensionistas”, afirmou. Em seguida, delimitou sua própria base: “Eu foquei muito a minha atuação nos militares estaduais, por isso a minha militância, o meu trabalho muito voltado para polícia, bombeiro, agente penitenciário… É um público que eu foquei em complementar meu pai”. Ele concluiu sintetizando essa divisão: “Meu pai defendia os militares federais, eu defendia os militares estaduais”.
A distinção, no entanto, não se restringe a uma simples segmentação eleitoral. Flávio ingressou na política como deputado estadual no Rio de Janeiro em articulação direta com Jair Bolsonaro, compartilhando o mesmo eleitorado inicial. A diferença central apontada na entrevista é de natureza política e cultural: enquanto o pai construiu sua base entre integrantes das Forças Armadas, o filho se consolidou entre corporações inseridas no cotidiano urbano, marcadas por operações diretas em territórios periféricos.
Essa identificação foi reiterada em diversos momentos da conversa. “Sempre defendi e sempre vou defender policial. Tenho admiração pelos policiais. São caras que dão a vida pela gente (…) Eu já subi morro para participar de reconstituição de operações policiais… Esse tipo de político que diz defender direitos humanos ia para prejudicar os policiais”, declarou o senador.
O ponto mais sensível da entrevista surgiu quando Flávio abordou sua atuação durante a Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias, realizada em 2008 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Ao comentar o contexto da época, relativizou a caracterização de grupos milicianos: “Qualquer prédio que tinha dois, três policiais morando era milícia… Se tinha uma rua onde moram 10 policiais e eles não deixavam ter uma boca de fumo na porta da casa deles, chamavam de milícia… Nesse cenário, a gente defendia a legitimidade dos policiais”.
A mesma linha de defesa apareceu ao tratar de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), apontado como liderança da milícia Escritório do Crime. Flávio afirmou: “Eu o conheci dentro do Bope, dando instrução de tiro para mim… Era uma referência, exímio atirador, super respeitado dentro da polícia”. O senador concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias da Alerj, quando o policial já respondia a acusações criminais.
O vínculo extrapolou o reconhecimento institucional. A mãe e a ex-esposa de Adriano da Nóbrega foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro durante seu mandato como deputado estadual. Ambas foram mencionadas em investigações relacionadas ao esquema de rachadinha envolvendo Fabrício Queiroz. Na entrevista, o senador justificou: “Fiz uma homenagem para ele e entreguei dentro do batalhão especial prisional para publicamente manifestar: ‘Ó, tô aqui defendendo um policial injustiçado’”. Ele acrescentou: “Eu conheci a família dele porque tinha movimento de esposas de policiais militares que defendiam esses familiares…”.
A defesa incondicional de agentes de segurança se estende à sua visão sobre o uso da força. Ao comentar uma operação policial realizada em novembro de 2025 no Rio de Janeiro, que resultou na apreensão de mais de 100 fuzis, Flávio declarou: “Para mim, foi uma operação que tinha que ter mais umas 200 dessas aí para começar a dar jeito”. Em seguida, sintetizou sua posição: “Se enfrentar a polícia vai ser neutralizado, tem que ser mesmo. O marginal que for pego vai ser preso e não vai sair, mas se enfrentar a polícia vai ser neutralizado”.
O alinhamento entre bolsonarismo e forças policiais já havia se manifestado de forma explícita em episódios recentes da política brasileira. Em 8 de janeiro de 2022, setores das polícias militares tiveram participação direta na tentativa de golpe em Brasília. Reportagem publicada em 7 de fevereiro de 2024 pelo Intercept Brasil revelou que integrantes da cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal articularam estratégias internas para evitar responsabilização, incluindo a tentativa de isolar um coronel como responsável exclusivo pelos fatos.
A atuação de Flávio Bolsonaro, no entanto, indica um aprofundamento desse vínculo. Reportagem de Alice Maciel publicada em 31 de março de 2026 pelo ICL Notícias revelou que o senador atuou como advogado na defesa de um policial acusado de matar uma menina de 5 anos durante uma operação no Rio de Janeiro. Embora o direito à defesa seja garantido, o episódio evidencia um grau de comprometimento político com agentes de segurança mesmo em situações de alta gravidade.
A centralidade das polícias militares no projeto político de Flávio Bolsonaro aponta para uma estratégia que combina capital eleitoral e pressão institucional. Ao transformar a segurança pública em eixo estruturante de sua atuação, o senador associa sua base a práticas que ampliam o uso da força estatal em territórios urbanos, especialmente nas periferias, onde essas corporações operam cotidianamente.



































