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Juventude africana enfrenta falta de investimentos e empregos de qualidade

A Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (Uneca) alertou em 3 de junho que milhões de jovens africanos continuam encontrando barreiras para acessar empregos e financiamento, apesar da existência de políticas públicas voltadas para a juventude. Dados apresentados pelo órgão indicam que, até 2035, mais jovens entrarão anualmente no mercado de trabalho africano do que em todas as demais regiões do planeta somadas. O diagnóstico expõe uma contradição estrutural: enquanto o continente concentra uma das populações mais jovens do mundo, a capacidade econômica para absorver essa força de trabalho permanece limitada por décadas de dependência econômica, restrições de investimento e inserção desigual na economia global.


ONU/Mark Garten Dois pescadores lançam suas redes ao largo da costa de Rincão, Cabo Verde
ONU/Mark Garten Dois pescadores lançam suas redes ao largo da costa de Rincão, Cabo Verde

Durante encontros com jovens, empreendedores, trabalhadores do setor formal e pessoas desempregadas, o consultor sênior de Políticas Sociais da Uneca, Jalal Abdel-Latif, identificou a escassez de investimentos como uma das principais barreiras ao acesso a oportunidades econômicas. Segundo ele, programas de formação profissional continuam preparando trabalhadores para determinadas atividades, mas não garantem a existência de postos de trabalho após a conclusão dos cursos.


Abdel-Latif também se reuniu com representantes municipais, empresários, educadores e organizações juvenis para avaliar a efetividade das políticas existentes. De acordo com o consultor, a questão central já não reside na formulação de programas governamentais, mas em sua execução. O levantamento realizado pela Uneca apontou que muitos países africanos possuem estruturas normativas e planos nacionais voltados para a juventude, porém enfrentam dificuldades para transformar essas iniciativas em resultados concretos.


A Uneca destaca que a pressão sobre o mercado de trabalho aumentará nos próximos anos. A projeção do organismo mostra que, até 2035, o número de jovens ingressando anualmente na força de trabalho africana superará o registrado em qualquer outra região do mundo. Esse crescimento demográfico exige expansão econômica capaz de criar empregos em quantidade suficiente para absorver milhões de novos trabalhadores.

A discussão ocorre em um contexto marcado por padrões históricos de inserção subordinada de diversas economias africanas nos mercados globais. A exportação de matérias-primas, a dependência de capitais externos e as limitações industriais continuam restringindo a geração de empregos em setores de maior remuneração. Nesse cenário, o crescimento populacional amplia a pressão sobre governos nacionais para converter crescimento econômico em ocupação produtiva.


A Uneca ressalta que a resposta institucional para esse desafio já está prevista na Carta da Juventude da União Africana. O documento estabelece que os Estados-membros devem formular e implementar políticas nacionais voltadas à juventude como uma obrigação central de governo.


A Carta determina ainda que essas políticas sejam construídas com participação direta dos jovens nos processos de decisão e governança. O texto também prevê a criação de mecanismos institucionais de coordenação, a elaboração de diagnósticos sobre a realidade juvenil, a promoção da igualdade de oportunidades e a garantia de financiamento para a execução das medidas adotadas.


Segundo a Uneca, o problema não se limita ao volume de empregos disponíveis. A qualidade das ocupações oferecidas também aparece como elemento central da crise social enfrentada por milhões de jovens africanos.


Em grande parte do continente, as economias nacionais não conseguem gerar vagas suficientes nos setores formais. Como resultado, uma parcela significativa da juventude encontra ocupação em atividades informais, incluindo comércio ambulante e trabalho temporário na construção civil. Jalal Abdel-Latif afirmou que essa realidade atinge milhões de pessoas e reduz perspectivas de estabilidade econômica e proteção social.


A situação das mulheres apresenta indicadores ainda mais restritivos. Embora a África registre uma das maiores taxas de empreendedorismo feminino do mundo, a Uneca aponta que grande parte desses negócios surge por necessidade econômica e não por acesso planejado a oportunidades de investimento ou expansão produtiva.


Relatórios da comissão mostram que muitas mulheres iniciam atividades empresariais diante da ausência de alternativas no mercado de trabalho. O levantamento também indica que a desigualdade no acesso ao financiamento permanece elevada.


Segundo dados citados pela Uneca, dos recursos equivalentes a 30% do Produto Interno Bruto destinados a investimentos em países em desenvolvimento, apenas 1% chega às mulheres empreendedoras. O dado evidencia a concentração dos mecanismos de financiamento e a dificuldade de acesso ao crédito enfrentada por empresárias africanas, inclusive entre aquelas que possuem níveis elevados de escolaridade.


A comissão afirma que a ampliação das oportunidades para a juventude dependerá da capacidade dos governos africanos de transformar compromissos políticos em mecanismos efetivos de emprego, financiamento e participação econômica para uma geração que continuará crescendo ao longo da próxima década.

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