Meios de comunicação reduzem cobertura de feminicídios em contraste com aumento dos crimes
- www.jornalclandestino.org

- 28 de abr.
- 2 min de leitura
A cobertura midiática sobre violência contra mulheres atingiu em 2025 o nível mais baixo em quase uma década, segundo levantamento internacional divulgado em 27 de abril de 2026. O estudo analisou 1,14 bilhão de artigos publicados entre 2017 e 2025 e identificou que apenas 1,3% das notícias trataram do tema no último ano. O dado contrasta com a persistência e a escala global das agressões de gênero, que seguem afetando milhões de mulheres. A retração ocorre paralelamente ao avanço de discursos antifeministas organizados em escala internacional. As informações foram publicadas pela plataforma Planeta Ella, com base no relatório The Global Misogyny News Coverage Tracker e reportagem de Ana Carbajosa, do El País.

O levantamento indica uma queda significativa em relação a 2018, período marcado pelo auge do movimento #MeToo, quando a cobertura atingiu seu ponto mais alto. Mesmo diante de casos de grande repercussão internacional nos anos seguintes, como os abusos sistemáticos envolvendo Jeffrey Epstein e as violações sofridas por Gisèle Pelicot, a presença do tema na agenda midiática não acompanhou a gravidade dos fatos.
O relatório não apenas quantifica a redução da cobertura, mas também aponta distorções estruturais na forma como a violência é retratada. A análise revela que a perspectiva predominante continua sendo masculina: para cada mulher citada nas reportagens, quase quatro homens têm voz. Além disso, as narrativas tendem a priorizar os agressores, relegando as sobreviventes a posições secundárias e frequentemente omitindo o contexto social, político e econômico que sustenta essas violências.
Em termos globais, a dimensão do problema permanece alarmante. Dados da Organização das Nações Unidas indicam que quase uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual ao menos uma vez na vida. Apesar disso, a cobertura jornalística não reflete essa magnitude, contribuindo para um processo de invisibilização que acompanha estruturas históricas de poder.
O ambiente digital intensifica esse cenário. O relatório destaca o uso crescente de tecnologias como inteligência artificial para a exploração e abuso de menores, além do aumento nas buscas por ajuda relacionadas à violência doméstica. Esses indicadores sugerem não apenas a continuidade, mas a ampliação das formas de violência em contextos contemporâneos marcados por plataformas digitais e vigilância algorítmica.
Paralelamente, discursos antifeministas ganham força e organização. As menções à chamada “ideologia de gênero” cresceram 42 vezes entre 2020 e 2025, frequentemente impulsionadas por campanhas coordenadas. Esse avanço ocorre em sintonia com dinâmicas políticas globais que combinam conservadorismo social, desinformação e estratégias de mobilização digital.
O relatório caracteriza o fenômeno como um processo de silenciamento estrutural: a violência não diminui, mas sua visibilidade pública é reduzida e distorcida. Nesse contexto, iniciativas de comunicação feminista são apontadas como ferramentas essenciais para enfrentar a subnotificação e produzir narrativas que evidenciem as raízes estruturais da violência contra mulheres, lésbicas, travestis e pessoas trans.
Os dados e análises foram compilados pelo The Global Misogyny News Coverage Tracker e divulgados pela plataforma Planeta Ella, com base em informações da jornalista Ana Carbajosa, do jornal El País.












































