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O julgamento de manifestante presa por usar fantasia de pênis em protesto “No Kings” contra Trump

O julgamento de uma manifestante detida durante um protesto no Alabama terminou em absolvição após decisão judicial em 15 de abril de 2026. A acusação sustentava que a mulher representava risco à segurança pública, argumento rejeitado pelo juiz. O caso ocorreu após sua prisão em outubro de 2025, quando participava de um ato político vestindo uma fantasia inflável. A defesa alegou violação à liberdade de expressão e uso desproporcional da força policial. A decisão expôs tensões entre repressão estatal e direitos civis no contexto político estadunidense contemporâneo.


Renea Gamble em um protesto do No Kings sendo abordada pelo cabo Andrew Babb, da polícia de Fairhope, em Fairhope, Alabama, em 18 de outubro de 2025. | ARQUIVO
Renea Gamble em um protesto do No Kings sendo abordada pelo cabo Andrew Babb, da polícia de Fairhope, em Fairhope, Alabama, em 18 de outubro de 2025. | ARQUIVO

O tribunal municipal de Fairhope, no estado do Alabama, absolveu Renea Gamble, de 62 anos, após considerar insuficientes as provas apresentadas pela acusação para sustentar as contravenções imputadas. A decisão foi proferida pelo juiz Haymes Snedeker ao final de um julgamento que se estendeu por várias horas no Fairhope Civic Center. A promotoria municipal havia ampliado as acusações iniciais, incluindo a alegação de fornecimento de nome falso às autoridades, posteriormente descartada ainda durante o processo.


Gamble foi presa em outubro de 2025 durante um protesto do movimento No Kings, no qual utilizava uma fantasia inflável de aproximadamente 2,13 metros em formato fálico e portava um cartaz com os dizeres “No Dick, Tator”. Imagens do episódio circularam amplamente nas redes, transformando o caso em símbolo local de debate sobre liberdade de expressão. A manifestação ocorreu em via pública e foi descrita por testemunhas como pacífica.


Durante o julgamento, o advogado da cidade, Marcus McDowell, tentou sustentar que a ré teria provocado deliberadamente sua própria prisão, chegando a convocar como testemunha surpresa Larry Fletcher, marido de Gamble, de 63 anos. Ao ser questionado sobre suposta preparação prévia para pagamento de fiança, Fletcher respondeu: “Eu sempre me certifico de ter dinheiro para a fiança!”, provocando risos no tribunal e enfraquecendo a tese acusatória.


A promotoria insistiu que o caso não envolvia liberdade de expressão, mas sim segurança pública. O cabo Andrew Babb, policial responsável pela prisão, afirmou que a manifestante representava “uma distração” e, portanto, um risco potencial para motoristas e pedestres. Segundo seu depoimento, a fantasia dificultava a visão e locomoção de Gamble, justificando a abordagem policial.


Entretanto, imagens de câmeras corporais apresentadas pela defesa contradisseram parte significativa do relato policial. Os vídeos mostram o agente repreendendo a manifestante repetidamente pelo conteúdo simbólico da fantasia e questionando sua adequação moral, afirmando: “Não estou tentando violar sua liberdade de expressão. Estou tentando preservar uma cidade que tem valores”. As gravações também indicam que Gamble foi derrubada ao chão e algemada enquanto tentava se retirar do local.


A defesa, conduzida pelo advogado de direitos civis David Gespass, argumentou que a abordagem policial foi seletiva e motivada pelo conteúdo político do protesto. Testemunhas presentes no ato confirmaram que não houve tumulto ou ameaça concreta à ordem pública, sustentando que a única escalada de tensão partiu da intervenção policial.


Do lado de fora do tribunal, dezenas de apoiadores se reuniram com cartazes e fantasias simbólicas, denunciando o que consideraram repressão à liberdade de expressão. Antes de entrar na audiência, Gamble declarou: “Não estou sendo julgada. O que está em julgamento é a Primeira Emenda”, em referência à Constituição estadunidense.


O juiz Snedeker afirmou que, embora a polícia pudesse alegar causa provável para a detenção, o conjunto probatório não sustentava condenação “além de qualquer dúvida razoável”. Com isso, declarou Gamble inocente de todas as acusações remanescentes.


O caso ocorre em meio a um ambiente político polarizado nos Estados Unidos, onde disputas sobre liberdade de expressão, repressão policial e mobilização política têm se intensificado, especialmente em estados conservadores. Em Fairhope, cidade costeira a cerca de 32 quilômetros de Mobile, o episódio também se insere em conflitos recentes envolvendo censura a bibliotecas públicas e perseguição a manifestações políticas.


Após a absolvição, Gamble anunciou que pretende processar a cidade, formalizando um aviso judicial dias depois da decisão. Seu advogado indicou que a ação deve questionar a legalidade da prisão e o uso de força policial.

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