O mapa que Churchill desenhou: como o “Oriente Médio” foi inventado pelo colonialismo britânico
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O termo “Oriente Médio” é tão naturalizado no vocabulário cotidiano que poucos param para questionar sua origem ou significado preciso – afinal, ele parece descrever uma realidade geográfica objetiva. No entanto, esta reportagem demonstrará que a expressão não apenas é uma invenção recente, datada do final do século XIX, mas também carrega em sua própria formulação as marcas do imperialismo europeu e uma visão de mundo eminentemente ocidental. Ao contrário do que sugere sua aparência descritiva, “Oriente Médio” é uma construção geopolítica que reflete menos a realidade da região do que os interesses estratégicos de potências estrangeiras, principalmente britânica e, posteriormente, dos Estados Unidos.
A definição do que é ou não o Oriente Médio nunca foi consensual, variando dramaticamente conforme a perspectiva adotada. Para o Departamento de Estado norte-americano, o termo pode incluir desde o Marrocos até o Afeganistão, enquanto acadêmicos e governos regionais preferem designações alternativas como “Ásia Ocidental” ou “Mundo Árabe”. Esta ambiguidade é uma característica constitutiva do conceito, que sempre serviu a propósitos estratégicos específicos de cada época. Compreender essa disputa conceitual é o ponto para desnaturalizar um dos rótulos geopolíticos mais influentes de século XX e questionar como categorias forjadas no contexto imperial continuam moldando nossa percepção do mundo contemporâneo.

A história documentada do termo “Oriente Médio” começa em 1902, quando o almirante e estrategista naval norte-americano Alfred Thayer Mahan – famoso por sua teoria do poder marítimo – publicou um artigo na revista National Review em que defendia o fortalecimento da presença naval britânica no Golfo Pérsico (1). Mahan precisava de uma expressão para designar a região que se estendia “entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico”, guardando a rota marítima de Suez a Singapura (2). Sua perspectiva era, portanto, inerentemente imperial, sendo que, o que importava não eram as características culturais, linguísticas ou religiosas da área, mas sua posição estratégica nas rotas que ligavam a Europa ao subcontinente indiano, a joia da coroa britânica. Contudo, foi o jornalista e diplomata britânico Valentine Chirol quem verdadeiramente popularizou o termo. Após retornar de uma viagem à Pérsia e às terras vizinhas entre 1902 e 1903, Chirol publicou uma série de artigos no The Times sob o título “The Middle Eastern Question”, seguida por um livro homônimo que “marcou o primeiro uso público sustentado do novo termo” (2). Para Chirol,
o Oriente Médio incluía “aquelas regiões da Ásia que se estendem até as fronteiras da Índia ou comandam as aproximações da Índia, e que estão consequentemente ligadas aos problemas da defesa política e militar indiana”.
A definição definia que o Oriente Médio existia, em primeiro lugar, como uma categoria administrativa e militar do Império Britânico.
Antes da Primeira Guerra Mundial, os britânicos dividiam mentalmente o que hoje chamamos de Oriente Médio em duas regiões distintas: o “Próximo Oriente” (Near East), que abrangia os Bálcãs e o Mediterrâneo oriental sob domínio otomano, e o “Oriente Médio” propriamente dito, referente à área ao redor do Irã e do Golfo Pérsico. Havia uma lógica geográfica e estratégica nessa divisão: o Próximo Oriente estava, como o nome indica, mais próximo da Europa, enquanto o Oriente Médio ocupava uma posição intermediária entre o Próximo e o “Extremo Oriente” (Ásia Oriental). Para os administradores coloniais britânicos, o Oriente Médio era a região crucial para a defesa da Índia, ao passo que o Próximo Oriente estava sob controle otomano (1).
A desintegração do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial alterou radicalmente esse quadro. Winston Churchill, na qualidade de secretário das Colônias, criou um “Departamento do Oriente Médio” (Middle Eastern Department) para administrar os novos territórios adquiridos pelo Império britânico – Palestina, Jordânia e Iraque. Nesse momento, o termo deixou os círculos restritos da burocracia colonial e começou sua jornada rumo ao uso público generalizado. Nas palavras do historiador Roderic Davison, citado pelo Washington Post, “dessa forma, o Oriente Médio irrompeu na costa do Mediterrâneo” (1).
Durante várias décadas, o novo uso permaneceu confinado a ramos obscuros do governo britânico. Mas, como mostram análises de frequência de uso do termo, foi durante a Segunda Guerra Mundial que “Oriente Médio” se consolidou no vocabulário do público de língua inglesa. O motivo foi que milhões de pessoas passaram a ler diariamente relatos sobre os desenvolvimentos militares na região, e o termo oferecia um atalho conveniente para designar um teatro de operações que se estendia do Norte da África ao Iraque. Quando os Estados Unidos emergiram como potência hegemônica na Guerra Fria e voltaram sua atenção para a área, adotaram o termo britânico então prevalecente, cristalizando-o no discurso internacional.
Há uma ironia histórica notável nessa trajetória. Winston Churchill, que mais do que qualquer outro ajudou a institucionalizar o termo ao criar o departamento governamental correspondente, nunca escondeu seu descontentamento com a expressão. Em 1950, já fora do governo, Churchill ‘lamentou’ dizendo que “Sempre senti que o nome ‘Oriente Médio’ para Egito, Levante, Síria e Turquia foi mal escolhido. Isso era o Próximo Oriente”. Essa artificialidade, no entanto, não impediu que o termo adquirisse vida própria e se tornasse uma ferramenta analítica aparentemente neutra. Acadêmicos, jornalistas e formuladores de políticas passaram a empregá-lo como se designasse uma unidade geográfica natural, quando na realidade ele sempre foi uma categoria estratégica disfarçada de descrição geográfica (3). A geógrafa e os estudiosos do Jasūr Magazine observam que “o ‘Oriente Médio’ é uma construção política instável e relativamente recente”, cujas fronteiras geográficas mudaram para refletir os “interesses estratégicos da principal potência hegemônica na região, inicialmente o Reino Unido e mais tarde os Estados Unidos” (2).
A cartografia como instrumento de poder
A arbitrariedade do termo torna-se ainda mais evidente quando se examinam as diferentes definições propostas ao longo do tempo. Não há consenso sobre quais países compõem o Oriente Médio, e essa falta de acordo revela os diferentes interesses em jogo.
A definição mais restrita limita-se aos países do Levante (Síria, Líbano, Jordânia, Palestina ‘Israel’), à Península Arábica e ao Irã. Uma definição intermediária adotada por organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, incorpora o Norte da África (MENA – Middle East and North Africa), incluindo Egito, Líbia, Tunísia, Argélia e Marrocos (3). Já uma definição expansiva pode chegar a incluir Afeganistão, Paquistão e até mesmo os países da Ásia Central.
O primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru, figura central nas luts por independência indiana e no movimento do bloco não alinhado, foi um dos críticos mais contundentes do termo, observando que a região deveria ser chamada propriamente de “Ásia Ocidental”. Uma sugestão que, no entanto, nunca prosperou no discurso internacional dominante. Nos círculos acadêmicos, houve esforços ocasionais para adotar termos como “Sudoeste Asiático”, mas eles nunca substituíram a nomenclatura consagrada.
Há, contudo, quem relativize a crítica. Como aponta Nick Danforth no Washington Post, muitos nomes de países implicam uma geografia relativa que raramente notamos – Noruega significa “caminho do norte”, Áustria significa “reino do leste”. Falantes de árabe há muito se referem ao Norte da África como Magrebe, termo que significa “oeste”, precisamente porque essa região fica a oeste do mundo árabe. O problema, portanto, não é que “Oriente Médio” expresse uma perspectiva particular – toda nomeação geográfica o faz – mas que essa perspectiva específica é a do colonizador, não a do habitante.
O jogo das inclusões e exclusões
A flexibilidade do termo “Oriente Médio” nunca foi um defeito acidental, mas uma característica funcional que serviu perfeitamente aos propósitos das potências ocidentais. Conforme observa o estudioso Osamah F. Khalil, as fronteiras geográficas do Oriente Médio “mudaram para refletir os interesses estratégicos da principal potência hegemônica na região”. Durante a Guerra Fria, por exemplo, a inclusão ou exclusão de determinados países dependia frequentemente de sua posição na disputa entre Estados Unidos e União Soviética. O Paquistão, aliado estratégico dos EUA e membro do Pacto de Bagdá (posteriormente CENTO)[1], era frequentemente incluído nas definições estratégicas do Oriente Médio, ao passo que, com o fim da Guerra Fria e a emergência de novas prioridades, sua presença nessas definições tornou-se menos frequente.
O geógrafo e acadêmico do Jasūr Magazine, Nile Green, argumenta que o “Oriente Médio” como modelo geográfico formal e fechado superou sua utilidade analítica. No entanto, esses modelos analíticos ainda “traçam formas de conectividade e similaridade” que ajudam a compreender dinâmicas históricas, políticas e culturais. O problema, Green sugere, não é usar a categoria, mas naturalizá-la como se fosse um dado da realidade, ignorando sua historicidade e os interesses que a moldaram. Essa dimensão política da nomeação fica ainda mais evidente quando se observa como diferentes tradições acadêmicas e nacionais definem a região. Nos Estados Unidos, o campo de Estudos do Oriente Médio (Middle Eastern Studies) consolidou-se após a Segunda Guerra Mundial com forte financiamento governamental, vinculado a interesses estratégicos da Guerra Fria. Na Europa, a tradição orientalista, criticada por Edward Said, produziu um conhecimento sobre a região frequentemente marcado por pressupostos colonialistas. Nos países árabe, o termo “Mundo Árabe” (al-‘alam al-‘arabi) é preferido, embora exclua o Irã, Israel e a Turquia – países centrais em qualquer definição ocidental do Oriente Médio. Os iranianos, por sua vez, referem-se ao país como parte da “Ásia Ocidental” (gharb-e asia), rejeitando explicitamente a nomenclatura europeia.
A persistência do termo “Oriente Médio” molda ativamente a forma como a região é percebida, estudada e governada. A categorização carrega consigo pressupostos sobre homogeneidade – que a região é predominantemente árabe, muçulmana e desértica – que obscurecem sua imensa diversidade étnica, religiosa e geográfica. O Oriente Médio abriga populações curdas, berberes, turcas, persas, armênias, assírias, entre muitas outras; práticas religiosas que vão do judaísmo ao cristianismo, passando pelo zoroastrismo e pelas múltiplas vertentes do islamismo; e paisagens que incluem montanhas nevadas, florestas e vales férteis, além dos desertos que se tornaram sua imagem estereotipada.
Ao reduzir a complexidade da região a alguns traços supostamente essenciais, o termo facilita intervenções externas que tratam a área como um todo unificado, ignorando as especificidades locais. A própria ideia de que existe “um” problema do Oriente Médio – em vez de múltiplos problemas em diferentes países – é uma abstração que serve a determinados interesses geopolíticos. Como argumenta Fawaz Gerges, professor da London School of Economics, as potências ocidentais historicamente perseguiram uma política externa intervencionista que “amplamente ignora os interesses dos povos do Oriente Médio”, oferecendo aos líderes regionais uma escolha de soma zero:
“ou se juntam às alianças de defesa regionais lideradas pelo Ocidente e abrem sua economia ao capital global, ou são considerados inimigos” Fawaz Gerges.
A permanência do termo também revela assimetrias de poder no campo da produção de conhecimento. É significativo que a região continue a ser designada por um nome imposto por potências externas, enquanto tentativas de substituí-lo por alternativas indígenas – como “Ásia Ocidental” ou “Mundo Árabe-Islâmico” – não ganharam tração no discurso internacional dominante. O linguista e estudioso de mídia observa que os mapas
“não são representações objetivas e factuais do mundo real; em vez disso, são ferramentas para alavancar dinâmicas de poder existentes para dominar o discurso em torno da compreensão do mundo”. Fawaz Gerges
O dinheiro, as pessoas e os sistemas ligados ao capitalismo e ao imperialismo reforçam a veracidade desses mapas.
O historiador e analista político chinês, citando o professor Tianjin Normal University Ha Quan’an, observa que o termo “se originou no contexto da expansão colonial ocidental, originalmente carregando traços históricos e coloração política de ‘eurocentrismo'” (4). Na China, como em outros países não ocidentais, a adoção do termo representa uma forma de aceitação tácita de uma categorização geopolítica forjada por outros – uma aceitação que, por sua vez, reforça a autoridade epistêmica do Ocidente para definir o mundo.
A trajetória do termo “Oriente Médio” – de uma expressão cunhada por um almirante norte-americano interessado em rotas navais a uma categoria universalmente adotada nos discursos midiático, acadêmico e diplomático – é um caso exemplar de como conceitos geográficos são produzidos social e politicamente. Longe de ser uma designação neutra, ela carrega as marcas do imperialismo britânico, foi consolidada pela hegemonia cultural e militar norte-americana e permanece como um instrumento analítico cujo conteúdo varia conforme os interesses estratégicos de quem o emprega. As disputas contemporâneas sobre o que incluir ou excluir do Oriente Médio – o Norte da África pertence? o Afeganistão? – não são debates técnicos sobre geografia, mas negociações políticas sobre como a região deve ser compreendida e, consequentemente, governada. Desnaturalizar o termo, reconhecendo sua historicidade e suas implicações, é um passo necessário para pensar a região fora das categorias herdadas do colonialismo – ainda que, por falta de alternativa igualmente consagrada, continuemos, provisoriamente, a chamá-lo de Oriente Médio.
Notas
[1] O Pacto de Bagdá foi uma aliança militar formada em 1955 entre Turquia, Iraque, Irã, Paquistão e Reino Unido, com forte apoio dos Estados Unidos, embora estes não fossem membros formais no início. Seu objetivo declarado era conter a expansão da influência soviética no Oriente Médio e na Ásia do Sul, inserindo a região na lógica de alianças da Guerra Fria. O pacto fazia parte da estratégia de “contenção” ocidental, criando um cinturão de segurança geopolítica em torno da URSS. Após a saída do Iraque em 1959, em decorrência de mudanças políticas internas, a organização foi reestruturada e passou a ser conhecida como CENTO (Central Treaty Organization). No entanto, a aliança nunca alcançou plena coesão ou eficácia militar significativa, sendo marcada por interesses divergentes entre seus membros e pela instabilidade política regional. A CENTO acabou sendo dissolvida em 1979, após a Revolução Iraniana, que retirou o Irã do bloco e encerrou sua relevância estratégica.
Bibliografia
1. GERGES, Fawaz. Why ‘the rest’ are rejecting the West. CGTN, 30 jan. 2024. .
2. HAMOUD, Hadeel. Where is the Middle East? Exploring an Amero-European Construction. Jasūr Magazine, s.d. Disponível em: https://jasurmagazine.org/mena.
3. SAGE PUBLISHING. Middle East. In: Encyclopedia of Business in Today’s World, 2009. Disponível em: https://sk.sagepub.com/ency/edvol/embed/businesstoday/chpt/middle-east.
4. 新民周刊. 中东棋局:为何和平总是“流产”? 中国中东研究网, 3 mar. 2026. Disponível em: https://mesi.shisu.edu.cn/1f/ee/c3713a204782/page.htm.



































