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O que está por trás dos entraves que dificultam projetos de energia nuclear no Oriente Médio

A Agência Internacional de Energia Atômica afirmou em 12 de maio que países do Oriente Médio e do Norte da África ampliam projetos nucleares diante da crise energética global e do aumento da demanda elétrica. Dados da ONU indicam que o consumo regional de energia triplicou entre 2000 e 2024, enquanto governos da região buscam reduzir dependência de combustíveis fósseis e responder à pressão sobre sistemas de dessalinização e refrigeração. O debate ocorre em meio a disputas geopolíticas, sanções, intervenções militares estadunidenses e expansão de infraestrutura estratégica em uma região marcada pelo controle externo sobre rotas energéticas e cadeias de abastecimento.


Gilles Mili | Pinterest
Gilles Mili | Pinterest

Relatório divulgado pela ONU News com base em informações da Agência Internacional de Energia Atômica, Aiea, aponta que governos do Oriente Médio estudam ampliar o uso da energia nuclear como alternativa para abastecimento elétrico e estabilidade energética. O documento afirma que a combinação entre crescimento populacional, aumento da demanda industrial e pressão climática acelerou projetos nucleares em países da região, ao mesmo tempo em que surgem obstáculos relacionados à segurança regional, ao financiamento de infraestrutura e às mudanças climáticas.


Segundo a Aiea, existem 416 reatores nucleares em operação distribuídos em 31 países, responsáveis por aproximadamente 10% da eletricidade consumida no planeta. A agência afirma ainda que cerca de 60 países estudam incorporar energia nuclear às suas matrizes nacionais. A expansão ocorre em um cenário de disputa global por fontes energéticas, cadeias industriais e controle tecnológico, marcado pela presença de conglomerados estatais e privados ligados a potências ocidentais e por décadas de sanções contra países do Sul Global que buscaram autonomia nuclear.

Shota Kamishima, representante da Aiea, declarou que a energia nuclear representa uma “enorme oportunidade” para os países interessados em ampliar geração elétrica sem elevar emissões de carbono. A declaração foi apresentada em meio ao reposicionamento de governos da região após sucessivas crises energéticas e oscilações no mercado internacional de combustíveis.


O Egito aparece entre os países citados pela ONU como exemplo de integração entre projetos nucleares e fontes renováveis. O governo egípcio pretende concluir a central nuclear de El Dabaa, cuja capacidade instalada projetada chega a 4,8 gigawatts. O complexo integra uma política energética que também inclui o Parque Solar de Benban e o Parque Eólico do Golfo de Suez.


A ONU afirma que a capacidade prevista para El Dabaa se aproxima de toda a capacidade solar fotovoltaica instalada em Portugal até 2024. O projeto nuclear egípcio ocorre em meio à tentativa do Cairo de reduzir dependência de importações energéticas e ampliar infraestrutura nacional em um contexto regional marcado por instabilidade política e militar.


A reportagem destaca que o aumento da demanda energética no Oriente Médio e no Norte da África ocorreu simultaneamente à expansão das necessidades de dessalinização e refrigeração. Almuntaser Albalawi, pesquisador do Instituto das Nações Unidas para Pesquisa sobre Desarmamento, Unidir, afirmou que essas pressões reforçam a busca regional por fontes de energia contínuas.


A expansão nuclear também esbarra em fatores climáticos. Zia Mian, codiretor do Programa de Ciência e Segurança Global da Universidade de Princeton, afirmou que o Oriente Médio aquece em ritmo duas vezes superior à média global. Segundo ele, um aumento de até cinco graus Celsius até o fim do século comprometeria diretamente o funcionamento de centrais nucleares instaladas na região.


Mian afirmou ainda que projetos nucleares exigem investimentos elevados em comparação com usinas solares e eólicas. “Em termos de benefícios climáticos por cada dólar investido, as duas opções simplesmente não são comparáveis”, declarou o pesquisador à ONU News.


A discussão sobre energia nuclear ganhou espaço durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática de 2023, quando organismos multilaterais passaram a incluir a tecnologia entre as fontes de baixa emissão de carbono cuja expansão deveria ser acelerada. O debate ocorre em paralelo ao avanço de disputas comerciais, sanções tecnológicas e operações militares em regiões produtoras de petróleo e gás, fatores que moldam o controle internacional sobre infraestrutura energética e rotas estratégicas de abastecimento.


A instalação nuclear de Bushehr, no Irã, citada pela reportagem da ONU, permanece entre os principais símbolos da disputa geopolítica envolvendo soberania energética e pressão externa sobre programas nucleares no Oriente Médio. O programa iraniano foi alvo de sanções econômicas, sabotagens e operações atribuídas a Israel e aliados estadunidenses ao longo das últimas décadas, enquanto Teerã sustenta que seu desenvolvimento nuclear possui finalidade civil e energética.


O texto da ONU foi baseado em reportagem de Liling Huang e publicado em 12 de maio de 2026 pela ONU News.

 
 

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