Pesquisadora diz que resistência às câmeras corporais na PM ainda é movida por disputa ideológica
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O uso de câmeras corporais por policiais militares reduziu em 76% a letalidade policial no estado de São Paulo desde 2019, segundo pesquisa da doutoranda Jessy Daiane Silva Santos na área de segurança pública. O estudo também aponta redução na morte de policiais e identifica resistência política e ideológica à ampliação da tecnologia por setores que defendem ações policiais sem controle externo. A pesquisadora comparou os modelos implantados em São Paulo e Bahia e destacou que os dois estados adotaram caminhos distintos para implementar os equipamentos.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Jessy Daiane Silva Santos afirmou que os dados sobre redução da letalidade desmontam o argumento de que as câmeras impedem o combate ao crime. Segundo ela, a oposição aos dispositivos não se sustenta em critérios técnicos, mas em uma visão política que naturaliza abusos policiais contra moradores das periferias e da população negra.
“Há um embate ideológico sobre o tema da segurança pública. Esse exemplo que eu dei, de que há uma concepção na sociedade de que, se a pessoa cometer um crime, todo tipo de abuso contra ela pode acontecer, tortura, execução. Há um imaginário que defende isso. Por mais que a nossa lei não seja assim, há um imaginário que defende isso e uma subcultura que pratica isso”, declarou.
A pesquisadora afirmou que parte da sociedade sustenta apoio a práticas ilegais conduzidas por agentes de segurança e enxerga as câmeras corporais como um obstáculo para operações violentas realizadas sem registro.
“Tem uma parte da sociedade que apoia essa posição. E eu acho que o embate sobre ter ou não ter está mais nesse campo, que é essa parcela que identifica que aquele que comete crime pode ser tratado de qualquer forma, pode ser torturado, pode ser executado, entende que a câmera inibe o policial de ter uma postura mais firme contra o crime”, afirmou.
O estudo analisou experiências nos estados de São Paulo e Bahia, identificando diferenças no processo político de implementação da tecnologia. Em São Paulo, a adoção das câmeras partiu da própria Polícia Militar e foi incorporada durante o governo João Doria após estudos sobre experiências internacionais.
“Quem propôs, quem teve a iniciativa, quem formulou e quem implementou foi a polícia para o governo. A corporação passa a estudar, vai conhecer experiências mundo afora, elabora uma proposta, apresenta para o governo [João] Doria, o governo Doria adota e implementa”, explicou.
Na Bahia, segundo a pesquisadora, a pressão ocorreu em sentido contrário. O governo estadual conduziu o debate com participação de movimentos populares, organizações negras e movimentos da juventude que denunciavam execuções policiais e reivindicavam mecanismos de controle sobre a atuação das forças de segurança.
“A proposta vem do governo para a polícia, vai para o debate com a sociedade e passa a ser implementada. Então, nas entrevistas aparece um peso maior dos movimentos sociais, do movimento negro, do movimento da juventude, na reivindicação para que a Bahia incorporasse essa política”, declarou.
A pesquisadora afirmou que a política de câmeras corporais precisa estar vinculada a mudanças estruturais na segurança pública e não apenas à adoção de equipamentos tecnológicos. Segundo ela, a discussão envolve a redução do uso da força letal por parte da Polícia Militar e a redefinição das práticas operacionais construídas durante décadas de militarização da segurança pública brasileira.
“Não é só a câmera, mas sim uma política de redução do uso da força, uma política de maior profissionalização e uma política que introduz novas concepções e novos olhares sobre o que é o trabalho da polícia militar e qual deve ser a sua conduta com relação às ações para que evite o evento morte”, afirmou.
Jessy Daiane Silva Santos declarou que o debate sobre segurança pública precisa enfrentar o padrão histórico de violência estatal dirigido contra territórios periféricos e populações racializadas no Brasil.
“Na prática, todo esse debate está em torno da ideia de que, sim, a violência existe, a atuação da polícia existe, mas como que a gente consegue construir uma política de segurança pública que evite o evento morte?”, disse.



































