Ruas controladas por gangues, redações fechadas: como a violência está corroendo a mídia no Haiti
- www.jornalclandestino.org

- 5 de mai.
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Jornalistas no Haiti relatam ameaças constantes de morte e restrições severas ao trabalho em meio ao avanço de gangues armadas. Mais de 80% da área metropolitana de Porto Príncipe está sob controle desses grupos, segundo profissionais de imprensa locais. Dados da UNESCO indicam que ao menos 14 jornalistas foram mortos no país desde 2021.

A escalada da violência no Haiti ocorre em um cenário de colapso institucional prolongado, marcado por intervenções externas recorrentes e pela fragilidade estrutural do Estado haitiano, historicamente submetido a pressões políticas e econômicas de potências estrangeiras, em especial da política externa estadunidense no Caribe. Atualmente, cerca de 1,4 milhão de pessoas foram deslocadas à força dentro do país, segundo dados de agências das Nações Unidas, em decorrência direta da atuação de grupos armados que controlam territórios urbanos e rotas estratégicas.
Em Porto Príncipe, jornalistas descrevem um ambiente de operação limitado por ameaças simultâneas de gangues e forças estatais. Jean Daniel Sénat, repórter do jornal Le Nouvelliste e da Rádio Magik 9, afirmou: “Os jornalistas atuam em um ambiente particularmente difícil e restritivo, caracterizado por desafios de segurança. Gangues controlam agora mais de 80% da área metropolitana de Porto Príncipe”. Ele relatou que a coleta de informações exige acesso a áreas sob domínio armado, o que expõe profissionais a riscos diretos.
Oberde H. Charles, editor do jornal Le National e da Télévision Pacifique, descreveu limitações logísticas impostas pela fragmentação territorial: “Não podemos circular livremente. Há pouca comunicação entre os diferentes departamentos do país e entre certos bairros da cidade aos quais temos acesso restrito”. A restrição de mobilidade afeta diretamente a verificação de informações e o contato com fontes primárias.
Além das ameaças de grupos armados, jornalistas relatam suspeitas por parte da polícia haitiana, que associa a presença da imprensa em áreas controladas por gangues a possíveis vínculos com organizações criminosas. Ao mesmo tempo, esses grupos armados acusam jornalistas de colaboração com autoridades estatais. “Estamos constantemente sob ameaça de grupos criminosos”, afirmou Sénat, descrevendo uma situação em que a atividade jornalística é interpretada como hostil por ambos os lados.
Casos recentes incluem o sequestro de dois jornalistas, segundo relato de Charles. Ele também mencionou um episódio ocorrido em 2022, durante protestos de trabalhadores têxteis, quando disparos da polícia deixaram feridos e resultaram na morte de um jornalista presente na cobertura. Esses eventos se somam ao registro da UNESCO, que documenta 14 assassinatos de profissionais de mídia no Haiti desde 2021.
A deterioração das condições de segurança levou ao fechamento de redações e ao deslocamento forçado de profissionais. O jornal Le Nouvelliste perdeu sua sede histórica no centro de Porto Príncipe em fevereiro de 2024, enquanto a Rádio Magik 9 abandonou suas instalações diante do avanço das gangues. Sénat relatou ter mudado de residência duas vezes devido à insegurança.
Diversos jornalistas deixaram o país e buscaram refúgio no Canadá, na França e nos Estados Unidos, segundo Charles. Ele afirmou que a decisão de sair do Haiti tem sido adotada como medida de proteção pessoal e familiar. “Hoje, isso parece ser a melhor decisão”, declarou.
Entre os que permanecem no país, há registros de ferimentos permanentes causados pela violência armada. Sénat relatou casos de colegas que perderam a visão, foram atingidos por disparos ou permanecem hospitalizados, incluindo um jornalista em tratamento em Cuba. Além das lesões físicas, profissionais enfrentam impactos psicológicos decorrentes da exposição contínua à violência.
O avanço das gangues também resultou na interrupção de transmissões de rádio e na perda de empregos no setor de mídia. A redução da capacidade de operação dos veículos compromete o fluxo de informações em um país onde a população depende da imprensa para orientação sobre áreas seguras e deslocamento.
Charles afirmou que a ausência de informação coloca em risco a estrutura política interna: “A falta de informação pode colocar a democracia e, consequentemente, a liberdade individual em risco”. Ele defendeu a necessidade de uma imprensa capaz de fornecer dados verificáveis à população em meio à fragmentação territorial.
Sénat destacou a função da imprensa na documentação da crise: “Se não documentarmos, se não informarmos, será a população que pagará o preço”. Ele afirmou que a ausência de cobertura resultaria na perda de registros sobre eventos em curso e no silenciamento de relatos locais.
O cenário atual reflete uma crise que se intensificou após anos de intervenções internacionais no Haiti, incluindo missões lideradas por forças estrangeiras sob mandato das Nações Unidas, que não resultaram na estabilização institucional prometida. A ausência de estruturas estatais operacionais, combinada com a expansão de grupos armados, consolidou um ambiente onde a imprensa opera sob risco direto, sem garantias de proteção institucional ou internacional.



































