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A mudança na política externa de Lula diante da ascensão de governos de direita na Colômbia e no Peru

A eleição do advogado milionário Abelardo de la Espriella na Colômbia e a iminente confirmação de Keiko Fujimori no Peru forçam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a recalcular a estratégia de inserção sul-americana em um eventual quarto mandato. Lula felicitou formalmente de la Espriella e enviará um representante à posse, marcada para 7 de agosto, buscando pavimentar diálogos pragmáticos em temas de interesse comum. A nova correlação de forças no subcontinente tende a esvaziar os fóruns multilaterais que marcaram os mandatos petistas anteriores, como a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), impondo ao Planalto a prioridade por negociações bilaterais.


Presidente Lula - Dante Fernandez I AFP
Presidente Lula - Dante Fernandez I AFP

Abelardo de la Espriella derrotou Iván Cepeda, candidato governista apoiado por Gustavo Petro, consolidando a guinada à direita que já se desenhava na região com as vitórias de José Antonio Kast, no Chile, e Daniel Noboa, no Equador. A diplomacia brasileira avalia que a margem para posicionamentos conjuntos em plataformas regionais será drasticamente reduzida, uma vez que os novos governos tendem a alinhar suas agendas de segurança e comércio a Washington. A aposta do governo Lula concentra-se agora em agendas de cooperação concreta que possam render dividendos independentemente das afinidades ideológicas, com ênfase em projetos de infraestrutura para escoamento rumo aos oceanos Atlântico e Pacífico, integração energética, mecanismos de combate ao crime organizado e protocolos de atuação conjunta diante de desastres naturais.


No Palácio do Planalto, a avaliação é de que não há margem para esperar que a Colômbia fique fora de iniciativas estadunidenses como o Escudo das Américas. A coalizão multinacional de segurança e política, liderada por Washington, foi desenhada para combater cartéis transnacionais de drogas, reduzir a imigração ilegal no Hemisfério Ocidental e limitar o que o Pentágono classifica como interferência geopolítica estrangeira. Gustavo Petro sequer havia sido convidado a integrar a formação durante seu mandato. Sob o governo de Abelardo de la Espriella, a chancelaria brasileira não nutre dúvidas de que Bogotá será chamada a participar do mecanismo, ampliando a presença militar e de inteligência estadunidense na fronteira amazônica.


O cenário peruano reforça a urgência do redesenho diplomático. Com a confirmação iminente de Keiko Fujimori no poder, Lima deve aprofundar o alinhamento automático com os Estados Unidos que já vigorava sob a administração interina, reduzindo ainda mais o espaço para iniciativas soberanas de integração regional. Lula, que já mantém canais de diálogo com Kast e Noboa apesar das divergências programáticas, planeja replicar o mesmo modelo de relação pragmática com de la Espriella e Fujimori, concentrando-se em interesses materiais compartilhados e evitando o isolamento diplomático do Brasil no subcontinente.


A Celac e a Unasul, que durante os ciclos progressistas anteriores serviram como instrumentos de projeção da política externa brasileira, enfrentam agora um bloqueio estrutural que transcende a alternância de governos. A fragmentação política da América do Sul, com a consolidação de administrações comprometidas com a agenda de segurança hemisférica desenhada pelo Pentágono, reduz a eficácia de qualquer tentativa de articulação multilateral que desafie os interesses estratégicos dos Estados Unidos. O governo brasileiro reconhece que a margem para posicionamentos conjuntos em temas como soberania amazônica, regulação de bases militares estrangeiras e negociação coletiva com potências extra-regionais ficou comprometida com a nova composição de forças no continente.


Os projetos de infraestrutura ganham centralidade no cálculo bilateral justamente por sua natureza técnica e pelo interesse econômico direto que despertam nas elites locais que apoiam os novos governos. A busca por saídas logísticas para o Pacífico, a partir do território colombiano, interessa ao agronegócio brasileiro; a conexão com o Atlântico, através de rotas que cruzam o Brasil, é vital para os exportadores colombianos. A questão energética, com potencial de complementaridade entre a matriz hidrelétrica brasileira e as reservas de gás e carvão colombianas, também oferece terreno para acordos que independem da coloração ideológica dos governantes. O combate ao crime organizado, particularmente na faixa de fronteira amazônica onde operam facções brasileiras, grupos paramilitares colombianos e cartéis mexicanos, é outro vetor que permite cooperação técnica sem exigir convergência política.


A posse de Abelardo de la Espriella, marcada para 7 de agosto, será o primeiro teste concreto da nova postura diplomática brasileira. O representante enviado por Lula levará a Bogotá uma mensagem de disposição ao diálogo pragmático e a oferta de uma agenda de trabalho focada em resultados econômicos e de segurança, evitando as pautas de integração política que caracterizaram as relações do Brasil com a Colômbia durante o governo Petro. A chancelaria brasileira trabalha com o pressuposto de que a adesão colombiana ao Escudo das Américas é inevitável e que qualquer tentativa de constrangê-la publicamente apenas aceleraria o alinhamento de Bogotá com Washington.

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