top of page
2_00000.avif

"Foi a maior experiência da minha vida": Aos 83 anos, aposentada gaúcha conclui trilha Caminho de Santiago de Compostela

A aposentada Marlene Terezinha de Carvalho Leite, de 83 anos, concluiu em março de 2026 uma peregrinação de aproximadamente 634 quilômetros entre Lisboa, em Portugal, e Santiago de Compostela, na Espanha. Moradora de Imbé, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, ela realizou o trajeto sozinha durante 17 dias, enfrentando cansaço, problemas de alimentação, dificuldades físicas e imprevistos ao longo do percurso. Sem experiência anterior em caminhadas de longa distância, a ex-professora preparou-se durante dois meses antes da viagem e estima ter investido entre R$ 25 mil e R$ 30 mil para completar a jornada.


O Caminho de Santiago reúne diferentes rotas utilizadas há mais de mil anos por peregrinos que seguem até a Catedral de Santiago de Compostela, na Galícia.
O Caminho de Santiago reúne diferentes rotas utilizadas há mais de mil anos por peregrinos que seguem até a Catedral de Santiago de Compostela, na Galícia.
Natural de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, Marlene afirma que nunca havia ouvido falar do Caminho de Santiago até uma viagem a Portugal realizada cerca de oito anos antes da peregrinação. Na ocasião, conheceu duas jovens de Manaus que haviam acabado de concluir o percurso e compartilharam a experiência. O relato despertou seu interesse e fez com que estabelecesse a meta de realizar o mesmo trajeto.

Naquele encontro, ela adquiriu uma vieira, concha que simboliza o Caminho de Santiago, e decidiu mantê-la em seu quarto como forma de lembrar do compromisso assumido consigo mesma.


"Aquelas gurias me despertaram o interesse. Naquela época, eu comprei a concha. Deixei no meu quarto para me lembrar que eu tinha esse compromisso", afirmou.


O Caminho de Santiago reúne diferentes rotas utilizadas há mais de mil anos por peregrinos que seguem até a Catedral de Santiago de Compostela, na Galícia. Segundo a tradição cristã, o local abriga os restos mortais de São Tiago, um dos apóstolos de Cristo. No Brasil, a peregrinação ganhou maior projeção após a publicação do livro O Diário de um Mago, de Paulo Coelho, em 1987.


Em 2025, Marlene vendeu um apartamento e destinou parte dos recursos obtidos para financiar a viagem. Divorciada e mãe de três filhos, organizou o roteiro para março de 2026 e iniciou a preparação física em Imbé.


Há cerca de 15 anos vivendo sozinha no município, ela passou a frequentar a academia do Sesc, onde treinou de segunda a sexta-feira durante dois meses. Os exercícios incluíram caminhadas em esteira, alongamentos e atividades voltadas ao condicionamento físico. Segundo ela, o ritmo alcançado nos treinos correspondia a aproximadamente seis quilômetros por hora.


"Não senti absolutamente nada. Nem no pé, nem no joelho, nem na lombar. A cervical eu senti por causa da mochila", relatou.


Em março deste ano, embarcou em um voo direto de Porto Alegre para Portugal. O percurso começou em Lisboa, de onde iniciou a caminhada carregando uma mochila de aproximadamente cinco quilos.


Durante a peregrinação, apenas o trecho entre Santarém e Porto, com cerca de 250 quilômetros, foi percorrido de trem. Segundo Marlene, o desgaste provocado pelo peso da mochila levou à decisão de interromper temporariamente a caminhada nessa etapa. Em outro momento da viagem, utilizou um serviço de transporte por aplicativo para chegar ao destino antes do fechamento do albergue onde havia conseguido hospedagem.


Hipertensa, mas sem limitações físicas, a aposentada caminhava entre 15 e 25 quilômetros por dia. Ao longo da jornada enfrentou dois dias de problemas estomacais sem companhia para auxiliá-la.


"Três coisas são fundamentais no caminho: os pés, a mochila e a alimentação", disse.


Para evitar bolhas, utilizava diariamente vaselina e um produto em pó nos pés. Também carregava um cajado de alumínio, embora afirme que não precisou utilizá-lo como apoio durante o percurso. Segundo seu relato, não sofreu quedas nem escorregões.


A bagagem foi reduzida ao mínimo necessário. Além do cajado, levava um par de tênis, uma sandália com sola esportiva, uma blusa, uma capa de chuva, toalha de banho, lençol, fronha, chapéu, nécessaire, três calças legging, três camisetas, três calcinhas, três tops e três pares de meias.


As noites eram passadas em albergues municipais ou particulares distribuídos ao longo da rota. Sem café da manhã incluído, os estabelecimentos levavam os peregrinos a iniciar o dia por volta das 6h, seguindo viagem logo após os preparativos.


A alimentação dependia dos locais encontrados durante o percurso. Em alguns dias, Marlene caminhou durante horas sem encontrar restaurantes ou mercados.


"Isso foi grave também. Às vezes, eu achava que ia encontrar algum restaurante pelo caminho. Mas passava um turno sem comer nada", recordou.


Em determinada ocasião, um proprietário de restaurante preparou um prato de frango ao perceber o desgaste físico apresentado pela peregrina e considerar que ela precisava consumir proteína.


"Não tem bom almoço, porque a gente caminha o dia inteiro. Só se chegar em algum lugar", afirmou, acrescentando que procurava manter frutas na mochila sempre que possível.


O único dia de chuva durante a caminhada resultou em roupas e equipamentos completamente molhados. Ao chegar ao Mosteiro de São Salvador de Vairão, recebeu acolhimento de voluntárias da instituição.


Segundo Marlene, elas prepararam um banho para os pés utilizando água, sal e recipientes instalados no piso do edifício.


"Tinha quatro pias no chão, com bolitas e um saco de sal do lado. Coloquei o sal, liguei a torneira e coloquei água. Os meus pés ficaram ali por 15 minutos, porque era muito frio e não tinha o que fazer", contou.


Outro episódio ocorreu quando chegou a uma cidade onde os quatro albergues disponíveis estavam lotados. Eram aproximadamente 17h e o anoitecer se aproximava.


Após buscar ajuda junto à administração municipal do local, conseguiu uma reserva em um albergue situado em outra cidade e utilizou um veículo por aplicativo para não perder a vaga disponível.


Ao longo da caminhada, encontrou repetidas vezes três jovens peregrinos — um italiano, um espanhol e um argentino — que percorriam a mesma rota. Segundo ela, os encontros ocorreram em diferentes localidades e acabaram criando uma rede de apoio informal.


"Eles sempre perguntavam como eu estava. Aquilo me dava força. Eu acho que não teria chegado se esses guris não tivessem se aproximado de mim", afirmou.


Durante a peregrinação, Marlene também se perdeu em três ocasiões. Em todas elas precisou retornar parte do caminho até reencontrar a sinalização oficial da rota.


As trilhas são marcadas por placas e setas acompanhadas da imagem da vieira, símbolo do Caminho de Santiago, utilizadas para orientar os peregrinos entre cidades, estradas rurais e áreas urbanas.


Ao chegar a Santiago de Compostela, recebeu a Compostela, certificado concedido pela Catedral aos peregrinos que concluem uma das rotas históricas e cumprem os critérios estabelecidos pela instituição religiosa. O documento reúne os carimbos obtidos durante todo o percurso, registrados nos locais por onde passou.


Além da Compostela, Marlene guardou mapas, fotografias, a vieira utilizada durante a caminhada e os endereços dos albergues onde permaneceu hospedada.


Segundo seu levantamento, a despesa média diária com hospedagem ficou em torno de R$ 300, sem incluir alimentação. Somadas as passagens aéreas, hospedagem, alimentação, deslocamentos e seguro de viagem, ela calcula que a peregrinação tenha custado entre R$ 25 mil e R$ 30 mil.


Ao relembrar a experiência, Marlene definiu a caminhada como o maior desafio que enfrentou.


"Foi a maior experiência da minha vida."


Questionada sobre a principal característica que considera responsável pela conclusão da peregrinação, respondeu:


"Minha qualidade: eu não desisto jamais."

apoie a ampliação do nosso trabalho

Valoriza o que estamos fazendo? Considere apoiar a ampliação do nosso trabalho com uma contribuição.

Frequência

1 vez

Mensal

Anual

Valor

R$ 10

R$ 20

R$ 30

R$ 40

R$ 50

R$ 100

R$ 200

Outro

editora
clandestino

Ao adquirir um de nossos arquivos, você contribui para a expansão de nosso trabalho.

MAIS VENDIDOS

bottom of page