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MÁ ALIMENTAÇÃO, ESCALA 6X1 E A VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE BIOQUÍMICA, SOCIAL E POLÍTICA DO COMPORTAMENTO HUMANO

Luiz Fernando Leal Padulla


Professor, Biólogo. Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação.


1. Introdução


A violência não pode ser compreendida de forma isolada. Para além das explicações simplistas centradas na criminalização do indivíduo, torna-se necessário compreender os determinantes biológicos e sociais que moldam o comportamento humano. Fome, desigualdade, exaustão laboral e alimentação inadequada configuram um cenário propício ao desenvolvimento de comportamentos agressivos.


Ilustrando isso, pode-se falar sobre a desumana escala de trabalho 6x1, que atinge mais de 33% da população brasileira – 44 horas/semana – esta que é uma das maiores cargas horárias entre economias médias.1 O regime de trabalho no país é atípico não só pela carga horária, mas pela organização da jornada. Nos países ricos, há redução de dias e horas, enquanto os chamados países emergentes, ainda que se mantenha altas jornadas de horas trabalhadas, não necessariamente são dispostas em 6 dias fixos.


Em países europeus, por exemplo, escala 6x1 é praticamente inexistente, sendo o descanso em fins de semana uma regra, inclusive com restrições legais ao trabalho dominical em alguns deles.3 Na Islândia e Bélgica, por exemplo, grande parte da população já trabalha com jornadas reduzidas (35–36h semanais) após testes bem-sucedidos. Outros como Reino Unido, Alemanha, Espanha, Japão, Nova Zelândia, África do Sul também estão migrando para esse padrão de jornada após projetos pilotos e incentivos governamentais.


Será mera coincidência que esses países estejam listados entre os mais felizes e politizados?6,7,8,9,10 Afinal, suas populações têm mais tempo para viverem e não apenas sobreviverem? Mais tempo de lazer, de convívio familiar e até mesmo para maior educação política – o que parece incomodar grande parte dos parlamentares brasileiros que, por sinal, trabalham na escala 3x4 com salários que ultrapassam R$ 46 mil e desfrutam de benesses como auxílio-moradia (R$ 4.253,00/mês), o tal auxílio-combustível e alimentação, chamada de Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (valores que variam de R$ 36 mil até R$51 mil) e até mesmo reembolso de despesas médicas.


Em resumo, os gastos individuais desses parlamentares chegam até R$180 mil/mês.11,12,13,14 Os mesmos parlamentares que, em nossa “democracia representativa”, acham-se no direito de legislar a jornada de trabalho dos brasileiros e brasileiras. E, mais recentemente, defendendo que crianças vítimas de estupradores não tenham mais o direito ao aborto15,16,17 e a redução da maioridade penal18, como se fosse resolver o problema da violência.


A somatória dessas condições as quais a população brasileira está sendo imposta de forma impositiva e antidemocrática, ocasiona reflexos na vida dos trabalhadores e trabalhadoras, tanto no aspecto físico quanto mental, gerando pessoas cansadas, estressadas, sem tempo adequado de sono, com má alimentação, o que desencadeia alterações comportamentais, incluindo aspectos de comportamentos violentos.



2. Bases neuroquímicas do comportamento humano e sua relação com a violência


Avançado para o processo de funcionamento da fisiologia cerebral, pode-se afirmar que a regulação do comportamento humano está diretamente associada à atividade de neurotransmissores, especialmente a serotonina e a dopamina, hormônios associados ao prazer e bem-estar.


Níveis reduzidos de serotonina (sintetizada a partir do aminoácido triptofano) promovem aumento da impulsividade e da agressividade, além de quadros de depressão e ansiedade.19,20 Assim, dietas pobres em proteínas podem desencadear menor produção deste neurotransmissor. Importante lembrar também que a secreção de serotonina depende de ambiente calmo, escuro e que promova o sono reparador.


Somando-se aos quadros de ansiedade e depressão, por exemplo, faz com que pessoas busquem na alimentação um refúgio para uma recompensa de satisfação mais imediata. E os alimentos muitas vezes consumidos são ricos em gorduras, açúcares, corantes e até mesmo com resíduos significativos de agrotóxicos – os chamados ultraprocessados. Além disso, o uso de drogas como medicamentos ansiolíticos e o próprio álcool somam-se aos ultraprocessados causando impacto direto no intestino, proporcionando disbiose da microbiota intestinal e impactando diretamente na produção da serotonina, uma vez que é neste órgão que grande parte dela é produzida.


Enquanto níveis baixos de dopamina fazem surgir sintomas como apatia, depressão, anedonia (perda de prazer), fadiga e dificuldade de concentração. Vale lembrar que esta é uma molécula que é facilmente liberada quando se tomam ações de recompensa imediata, como aquelas proporcionadas por jogos de apostas – a sensação da espera pela recompensa gerada pela expectativa de “ganhar” uma aposta.


Fatores biológicos e nutricionais como a deficiência de tirosina (aminoácido precursor da dopamina), baixos níveis de ferro, vitamina B6 e outros cofatores, assim como alterações hormonais (elevação dos níveis de cortisol (hormônio produzido sob condições de estresse), afetam significativamente esses neurotransmissores, afetando o funcionamento das atividades cerebrais e o comportamento humano.


Fatores ambientais também têm papel importante na produção e atuação dessas substâncias. A falta de sono, além de manter elevado os níveis de cortisol, reduz a sensibilidade dopaminérgica alterando os circuitos de recompensa. Com isso as pessoas sentem-se mais cansadas pela jornada exaustiva de trabalho, sem ânimo – e tempo – para atividades físicas, gerando populações cada vez mais sedentárias, o que ocasiona menor liberação de dopamina. Paralelamente, a excesso de tempo destinado aos estímulos ambientais como redes sociais, conteúdos pornográficos e jogos de apostas aceleram ainda mais a dessensibilização do sistema de recompensa.


E não são apenas déficits de aminoácidos que ocasionam alterações no comportamento humano por influenciar a produção de neurotransmissores. A deficiência de micronutrientes também desempenham papel importante.


A deficiência de ferro, por exemplo, compromete a síntese de neurotransmissores e o desenvolvimento do sistema nervoso central, estando associada à redução de emoções positivas e aumento de transtornos de conduta. Pesquisas indicam que um terço de adolescentes infratores apresentaram deficiência de ferro – essencial para o desenvolvimento do DNA, síntese e funcionamento de neurotransmissores e formação da substância branca do cérebro. No caso de crianças pré-escolares, a carência de ferro está relacionada com a redução de emoções positivas, o que caracteriza crianças com transtorno de conduta. O zinco, por sua vez, está relacionado à aprendizagem e à capacidade de inibição comportamental. Sua deficiência prejudica a capacidade de o indivíduo aprender com experiências negativas, característica frequentemente observada em comportamentos delinquentes.


E quando se analisam todos esses fatores e projetamos durante uma gravidez, a atenção deve ser redobrada, não apenas pela saúde da mãe, mas igualmente pelo bebê que está sendo gerado. complicações como anoxia e pré-eclâmpsia podem impactar o desenvolvimento cerebral, predispondo o indivíduo a comportamentos antissociais ao longo da vida. Acredita-se que 30% das mulheres grávidas com baixo nível socioeconômico tenham deficiência de ferro. Soma-se a isso o tabagismo, que prejudica o transporte de zinco da mãe par ao filho, piorando a situação.


Adicionalmente, dietas ricas em açúcares refinados provocam picos de insulina seguidos de hipoglicemia, resultando em irritabilidade, nervosismo e maior propensão à agressividade. Estudos têm mostrado que alimentos ricos em açúcar (carboidrato refinado) proporcionam maior disposição aos comportamentos antissociais em delinquentes juvenis. Isso porque causam aumento exageradamente atípico de insulina na corrente sanguínea, retirando o açúcar do mesmo, comprometendo o próprio funcionamento cerebral (que necessitaria de no mínimo 80 mg de glicose/minuto para funcionar). Ou seja, a queda abrupta da glicemia gera comportamento de nervosismo e irritabilidade. Em outro estudo britânico, constatou-se que crianças que comiam doces todos os dias, tinham o triplo de chance de se tornarem violentas aos 34 anos. Importante observar também que esse tipo de acesso/dieta reflete também uma alimentação pouco saudável.


Somam-se a esses fatores a contaminação ambiental por metais tóxicos. Quando expostos a metais pesados, como chumbo, cádmio e manganês, as alterações no desenvolvimento cerebral também são significativas. O chumbo, por exemplo, afeta o córtex pré-frontal, região responsável pelo controle de impulsos e tomada de decisão, local este que, afetado em seu desenvolvimento, está associado aos comportamentos antissociais e psicopatas. E o ferro tem importante papel nesse cenário, pois sua deficiência promove o aumento da absorção intestinal de metais tóxicos, intensificando seus efeitos neurodegenerativos e contribuindo para déficits cognitivos e aumento da violência impulsiva.


O cádmio é outro agente relacionado diretamente com a agressividade das pessoas. Elemento presente desde baterias recarregáveis, queima de combustíveis, cigarro e alimentos de origem animal (vísceras de animais) e cerais, justamente pelo processo de bioacumulação. E quando a dieta é carente em ferro, a situação piora, pois este mineral auxiliaria no bloqueio da absorção de cádmio no intestino.


A deficiência de ferro também aumenta a absorção de manganês, responsável pela redução dos níveis de serotonina e, consequentemente, refletindo em atos de violência impulsivos. Quando presentes em grande quantidade em bebês e crianças, os efeitos são danosos no desenvolvimento cerebral, ocasionando deficiências na velocidade cognitiva, memória de curto prazo e destreza manual. Ou seja, essas deficiências neurocognitivas, ao reduzirem também o QI, predispõem os indivíduos à violência.



3. Determinantes sociais, desigualdade e a dimensão política da violência


A violência também apresenta forte correlação com indicadores socioeconômicos. O Índice de Gini evidencia que sociedades mais desiguais apresentam maiores taxas de homicídio. Além disso, condições de trabalho extenuantes, como jornadas prolongadas, geram cansaço crônico, favorecendo o uso de substâncias psicoativas e reduzindo a capacidade de regulação emocional.


E como já abordado anteriormente, a alimentação baseada em ultraprocessados, amplamente difundida em populações de baixa renda (fato conhecido como nutricídio), agrava o quadro nutricional e neuroquímico, consolidando um ciclo de vulnerabilidade social e comportamental.


Soma-se a isso a discussão sobre a redução da maioridade penal no Brasil, já aprovada recentemente pela CCJ. A questão é que não basta reduzir para punir, mas oferecer condições dignas para a sobrevivência. Ainda mais se tratando de jovens que não veem perspectivas futuras para seu futuro, destruído ainda mais pelas políticas de reformas previdenciárias que os farão trabalhar ainda mais, sem que consigam efetivamente constituir um patrimônio com dignidade.


A análise dos fatores apresentados revela que a violência não é um fenômeno espontâneo, mas sim resultado de condições estruturais da sociedade. A precarização da vida, da alimentação e do acesso à saúde contribui para a manutenção de uma sociedade mais vulnerável e suscetível à violência. Nesse contexto, a criminalidade deixa de ser apenas um problema de segurança pública e passa a ser uma questão de saúde coletiva e justiça social. A ausência de políticas públicas eficazes levanta

questionamentos sobre os interesses na manutenção dessas desigualdades.

Em tempos de um Congresso Nacional brasileiro com raízes políticas de extrema-direita e servindo aos interesses do capital, não espanta que deputados, deputadas, senadores e senadoras subservientes a tais interesses, tentem argumentar contra o fim da escala de trabalho abusiva 6x1. Os mesmos parlamentares que se mostram favoráveis à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, como se encarcerar fosse a única solução. Importante destacar nesse ponto que o Brasil possui a 3ª maior população carcerária do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China, possuindo cerca de 950 mil pessoas privadas de liberdade. Além desses números exorbitantes, ressalta-se que há um déficit de vagas de mais de 175 mil vagas, ou seja, presídios superlotados operando acima da capacidade estrutural.


Piorando ainda mais a situação, parte significativa são presos provisórios (35%, correspondendo mais de 293 mil pessoas), que aguardam julgamento para condenação definitiva. E, mostrando que o sistema penal brasileiro é seletivo e nutrido pelo racismo estrutural, a maioria das pessoas que ali estão são homens (94%), pobres, negros (70%), jovens (60% até 34 anos) e de baixa escolaridade. Ou seja, o encarceramento está relacionado a desigualdade social, acesso desigual à justiça e às políticas de drogas e policiamento (esta, notória e igualmente racista).



4. Considerações finais


Compreender a violência como resultado de interações biológicas e sociais permite superar visões simplistas e avançar na construção de soluções estruturais e duradouras.


A redução da violência exige uma abordagem preventiva e multidisciplinar. Investimentos em alimentação adequada, saúde materno-infantil, controle ambiental e redução das desigualdades sociais são medidas essenciais para a construção de uma sociedade menos violenta.


Parlamentares e extrema-direita, ao impedirem que crianças estupradas tenham direito ao aborto, ignoram que essa criança/mãe poderá criar uma aversão ao feto que se desenvolve e é fruto de uma violência, e que a própria rejeição materna é outro fator que predispõem à violência na fase jovem e adulta.


O tempo para descanso é essencial para a saúde física e mental. Paralelamente, proporciona tempo para que os trabalhadores e trabalhadoras estudem, interajam e se organizem pelos interesses coletivos. E é justamente isso que a extrema-direita não deseja. É o mesmo artificio pelo qual atacam o patrono da educação Paulo Freire e sua educação libertadora, que forma cidadãos mais conscientes, críticos e que contestem o status quo, o que é uma ameaça, pois levaria a ruptura das manipulações midiáticas/burguesas, impostas pela “normose” social do cansaço proposital e até mesmo com a falaciosa defesa da meritocracia. Socializar, compartilhar, conviver, ajudar são as bases de qualquer sociedade harmônica, mas que definitivamente assusta a extrema-direita e o capital.


Com tudo isso fica evidente o desejo de novamente segregarem ainda mais as classes sociais menos favorecidas, colocando todo ônus da violência sob essa reduzida perspectiva, ignorando a visão ampliada e verdadeira do real motivo de uma sociedade violenta. Uma maneira mais fácil de agradar a sociedade reacionária e ignorante, e desfazendo-se nos reais motivos que envolvem melhorias sociais, dentre elas a redução da jornada de trabalho. Paralelamente, as chamadas “bancadas da bala, da bíblia e do boi”, lucram com a desigualdade seguem cultivando uma sociedade violenta, lucram com a venda de armas, investimentos belicistas, repressão policial, alinhamento com milícias nas igrejas neopentecostais e sua Teologia da Prosperidade – as mesmas que foram financiadas pela CIA, surgindo para combater a Teologia da Libertação que avançava na América Latina, criando senso contestador na população em relação aos interesses do capital estadunidense – e a contaminação ambiental com agrotóxicos e metais pesados provenientes de projetos de lei que aprovam afetando o ambiente e facilitando a degradação ambiental, como o PL da Devastação.

Cabe à população brasileira, fazendo uso de sua voz e seu poder de decisão através dos votos, mudar esse cenário e, principalmente, seguir sempre em prontidão para que os parlamentares que ocupam esses cargos, sejam efetivamente representantes do povo e do interesse da nação. Pois somente com a participação ativa da sociedade nas decisões políticas é que poderemos viver em um regime verdadeiramente democrático que defenda a soberania do país e promova condições dignas para seu povo.



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*Professor, Biólogo. Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação. Autor com canal no Youtube “Biólogo Socialista”. Instagram: @biologosocialista

 
 

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