Seleções africanas e asiáticas relatam tratamento racista nos EUA antes da Copa do Mundo
- www.jornalclandestino.org

- 10 de jun.
- 5 min de leitura
A poucos dias do início da Copa do Mundo de 2026, uma sequência de recusas de vistos, atrasos migratórios e inspeções direcionadas atingiu seleções, árbitros e torcedores de países da Ásia e da África. Os episódios ocorreram durante as 48 horas que antecederam a abertura do torneio organizado por Estados Unidos, Canadá e México. As ocorrências levantaram questionamentos sobre a capacidade do principal país anfitrião de garantir tratamento uniforme aos participantes de uma competição internacional organizada pela FIFA.

Os casos envolveram integrantes de delegações esportivas, árbitros credenciados, membros de comissões técnicas e torcedores que já possuíam ingressos adquiridos para os jogos. As medidas adotadas pelas autoridades migratórias estadunidenses atingiram em maior número representantes de países de maioria muçulmana, delegações africanas e equipes da Ásia Central.
Um dos episódios envolveu Breel Embolo, atacante da seleção da Suíça. Ao desembarcar nos Estados Unidos, o jogador teve seu visto submetido a análise administrativa, procedimento que o impediu de se reunir imediatamente com o restante da delegação suíça. O atraso interrompeu parte da preparação da equipe para o torneio.
Embora o atleta tenha recebido autorização para entrar posteriormente, o caso gerou questionamentos sobre os critérios utilizados pelas autoridades migratórias. Embolo não possuía antecedentes criminais conhecidos nem registros públicos relacionados a questões de segurança.
A delegação iraniana enfrentou obstáculos de maior dimensão. A equipe passou vários dias realizando procedimentos de obtenção de vistos no consulado estadunidense localizado na Turquia antes de receber autorização para viajar ao torneio.
Mesmo após a emissão dos documentos para parte da delegação, quinze integrantes iranianos tiveram seus pedidos negados. Entre os afetados estavam membros da comissão técnica, profissionais de apoio e o gerente da seleção, Mohammad Nabi. A negativa obrigou a equipe a reduzir seu quadro operacional durante a competição.
Além das restrições impostas aos integrantes da delegação, jogadores iranianos receberam autorização para entrada apenas nos dias de partida, medida que inviabilizou a realização de um cronograma regular de treinamentos em território estadunidense antes da estreia.
Na terça-feira, três dias antes da abertura da Copa do Mundo de 2026, autoridades estadunidenses também impediram a presença de torcedores iranianos nos estádios onde a seleção disputará suas três partidas da fase de grupos.
A Federação de Futebol do Irã condenou a decisão e afirmou que a medida anulou a cota de ingressos destinada à entidade. De acordo com os regulamentos da FIFA, 8% da capacidade de cada estádio deve ser reservada para distribuição pelas federações nacionais participantes.
A seleção do Iraque também enfrentou problemas de entrada. O atacante Aymen Hussein, artilheiro da equipe nacional, foi submetido a quase sete horas de detenção e interrogatório durante os procedimentos migratórios.
Nenhuma acusação formal foi apresentada contra o jogador. As autoridades também não divulgaram justificativa pública para o período de retenção.
Outro integrante da delegação iraquiana, fotógrafo oficial da seleção, permaneceu aproximadamente dez horas sob interrogatório em um aeroporto estadunidense. Após o procedimento, sua entrada foi negada e ele foi obrigado a retornar ao Iraque.
O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, escolhido pela Confederação Africana de Futebol como Melhor Árbitro Africano de 2025, também teve a entrada recusada. Artan viajava com passaporte diplomático e integrava o grupo de árbitros selecionados pela FIFA para atuar na competição.
Após a recusa ocorrida no aeroporto de Miami, a FIFA anunciou que o árbitro não participaria do torneio. Nenhuma justificativa pública foi apresentada pelas autoridades responsáveis pela decisão.
O caso ganhou repercussão por envolver um profissional previamente aprovado pelos mecanismos de seleção e credenciamento da própria FIFA. A situação expôs um choque entre os procedimentos da entidade esportiva e as decisões adotadas pelos órgãos de fronteira estadunidenses.
A seleção da África do Sul registrou atrasos em sua chegada ao país anfitrião. Parte da delegação não recebeu os vistos dentro do cronograma previsto, provocando alterações na logística da viagem e no planejamento da equipe.
Integrantes da comissão técnica da seleção do Senegal relataram procedimentos de inspeção que incluíram retirada de roupas e sapatos durante o controle de entrada. Os membros da delegação também foram submetidos a revistas prolongadas.
Os procedimentos geraram reclamações entre dirigentes e observadores ligados ao torneio. As críticas concentraram-se na ausência de relatos semelhantes envolvendo delegações europeias ou norte-americanas submetidas ao mesmo padrão de inspeção.
A seleção do Uzbequistão foi submetida a uma operação de segurança que incluiu o uso de cães farejadores de explosivos durante sua chegada aos Estados Unidos. Vídeos do procedimento circularam nas redes sociais e provocaram reações de torcedores e dirigentes esportivos.
As imagens mostraram atletas e membros da delegação passando por inspeções envolvendo equipes de segurança e cães treinados para detecção de explosivos. Nenhuma ameaça específica relacionada à delegação uzbeque foi divulgada pelas autoridades.
Torcedores da Escócia também foram afetados por medidas migratórias. Diversos cidadãos escoceses que possuíam autorização de viagem pelo sistema ESTA tiveram suas permissões revogadas dias antes dos jogos.
Os torcedores já haviam adquirido ingressos para partidas da Copa do Mundo e efetuado reservas de hospedagem. As revogações geraram perdas financeiras e impossibilitaram a viagem de parte dos interessados.
Até o momento relatado, nenhuma explicação pública havia sido apresentada para as decisões envolvendo os pedidos cancelados.
Situação semelhante atingiu torcedores de outros países. Em diversos casos, fãs que haviam comprado ingressos para partidas da Copa do Mundo receberam notificações informando a rejeição de seus pedidos de visto.
Entre os casos relatados estavam torcedores marroquinos que adquiriram ingressos para acompanhar a seleção nacional em partidas realizadas nos Estados Unidos. Muitos tiveram seus pedidos negados após a compra dos bilhetes e a realização de despesas de viagem.
As recusas ocorreram depois da contratação de hospedagens e outros serviços não reembolsáveis. A ausência de mecanismos rápidos de recurso deixou milhares de torcedores impossibilitados de participar do evento.
Os episódios registrados nas horas que antecederam a abertura da Copa do Mundo ampliaram questionamentos sobre a coordenação entre os sistemas de credenciamento da FIFA e os mecanismos migratórios dos Estados Unidos.
Os casos também evidenciaram diferenças no tratamento dispensado a delegações de distintas regiões do mundo. Enquanto não foram relatados obstáculos semelhantes envolvendo equipes europeias, as ocorrências atingiram representantes do Irã, Iraque, Senegal, África do Sul e Uzbequistão.
A recusa de entrada ao árbitro Omar Abdulkadir Artan, selecionado pela FIFA e portador de passaporte diplomático, tornou-se um dos exemplos mais citados de divergência entre as decisões da entidade esportiva e as determinações adotadas pelas autoridades de fronteira estadunidenses.
As negativas de vistos para torcedores que já haviam adquirido ingressos e reservado hospedagens também expuseram a ausência de coordenação entre os procedimentos migratórios e a estrutura internacional de venda de ingressos e logística organizada pela FIFA.












































