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Yasser Murtaja, o jornalista assassinado por representar a liberdade para os mais jovens palestinos

Atualizado: 27 de jul. de 2024


Mais de 50 mil palestinos marcharam para os limites da fronteira que separa a Faixa de Gaza do resto do mundo. Não eram soldados. Eram pessoas comuns, homens, mulheres, idosos e crianças que ombro a ombro se levantaram para exigir o direito à dignidade, liberdade e igualdade. Os religiosos aproveitavam a sexta-feira para fazer suas orações em grupo, enquanto os mais novos empinavam pipas que voavam para mais longe que qualquer um deles tivesse ido antes. Muitos deles levantavam as mãos, não para agredir, mas para exibir as chaves das casas que foram expulsos para que houvesse o Estado de Israel.

 

Yasser Murtaja, enquanto fotografava as crianças soltando suas pipas, recordava quando se sentia livre fazendo o mesmo. Nascido e criado no território espremido entre o mediterrâneo e o Estado de Israel, conhecia uma Gaza diferente dos noticiários. Ele via um lugar onde apesar de todas as dificuldades, as relações entre o povo, sua terra e sua história, permaneciam inalteradas na memória mesmo após décadas de ocupação. Essa era a mensagem que queria enviar para além da fronteira e esse era o motivo para estar presente naquele dia.

 

Além de cumprir seu papel como palestino, Murtaja estava na Grande Marcha do Retorno (GMR) trabalhando como profissional de imprensa, conforme estampado em seu capacete e colete a prova de balas. Como jornalista, ficou conhecido pela cobertura no resgate de Bisan Daher, uma menina que passou horas soterrada com os mortos de sua família depois que Israel bombardeou sua casa. Murtaja se enfiou no meio dos escombros para filmar, mas conquistando a menina com seu sorriso, acabou ajudando no resgate. Desde então ele percebeu que sua câmera poderia servir como ferramenta para salvar vidas. Sua cobertura na GMR, em 2018, visava captar imagens de dentro do território e distribuí-las para fora da fronteira, mostrando ao mundo que os palestinos estavam mais uma vez sendo soterrados enquanto se manifestavam pacificamente.


Quando se juntou às manifestações do dia 6 de abril de 2018, o jornalista sorridente já era considerado um ídolo, principalmente para as crianças, que viam nele o herói capaz de voar com seu drone para além das barreiras da ocupação. No entanto, a realidade era que ele estava tão preso dentro daqueles muros quanto qualquer outro. Naquele dia, aos 30 anos, o palestino foi atingido no estômago por um disparo de munição real – provavelmente expansiva – que atravessou o colete a prova de balas derrubando-o no chão. Socorrido pelos companheiros, Yasser Murtaja, nos braços do povo palestino, olhou para o céu e seus olhos viram pela última vez as pipas coloridas de Gaza. 




 

Antecedentes Criminais

 

Os eventos desde o advento do sionismo culminaram em inúmeros episódios drásticos, incluindo a Grande Marcha de Retorno e, consequentemente, na trágica morte de Yasser Murtaja e outros palestinos. Estes indivíduos lutavam por uma existência digna, buscando igualdade comparável à desfrutada por outros países, onde a liberdade mínima é garantida. Murtaja, jovem e aspirante a explorar o mundo, via na liberdade a oportunidade de voar e descobrir novos horizontes. Embora tenha recebido convites para participar de eventos e congressos internacionais, essas oportunidades nunca se concretizaram. Isso porque, para Israel, o conceito de liberdade está intrinsecamente ligado à contenção dos palestinos dentro dos limites da Faixa de Gaza, uma área de apenas 41 quilômetros de comprimento por 12 quilômetros de largura. Este confinamento serve aos propósitos de estabelecer um local onde imigrantes euro-judeus possam testar, nos jornalistas e civis palestinos cativos, o desenvolvimento militar e tecnológico que mais tarde será comercializado para o mundo "livre".

 

“A primeira vez em toda a minha vida que tive sucesso em viajar foi ontem, mas estou de volta hoje. Fiquei no lounge egípcio, e queria entrar no avião ou mesmo só ver um. Em vez disso, o que vi foi a humilhação e opressão do povo de Gaza, do qual há o suficiente para encher um livro. Os egípcios devolveram três ônibus de passageiros, alegando razões de segurança no Sinai”. Yasser Murtaja, 9 de fevereiro de 2018, dois meses antes da Grande Marcha de Retorno.

  

O exército israelense justificou sua ação, alegando que os antecedentes criminais do jornalista levaram-nos a suspeitar que Murtaja estava usando um drone para coletar informações para a inteligência do Hamas. O ministro da defesa israelense, Avigdor Lieberman, afirmou que "qualquer pessoa que use drones sobre os soldados de Israel deve estar ciente do risco que está assumindo" e que "não iremos tolerar nenhum tipo de ameaça". Mutassem Murtaja, irmão de jornalista assassinado, que foi o último a segurar sua mão na ambulância, confirmou que, ao sair de casa, seu irmão decidiu levar apenas sua câmera de mão.

 

“ele não queria correr o risco de ter seu equipamento derrubado naquele dia.” (MURTAJA, 2021)

 

O jornalista era reconhecido por suas imagens aéreas, especialmente após o lançamento do documentário "Surviving Shujayea"[1], publicado pela Al Jazeera. A alegação de que ele estava operando um drone parece ser uma tentativa de Israel de culpar o jornalista por sua própria morte.

 

Murtaja foi o primeiro jornalista assassinado na Grande Marcha de Retorno, ele estava devidamente identificado como profissional de imprensa, o que o caracterizava como civil não combatente. No mesmo fatídico dia, outras 1.350 pessoas foram feridas, incluindo nove jornalistas, todos munidos apenas de suas câmeras, não representando risco para os civis israelenses ou mesmo para a integridade física dos soldados que mortalmente armados na fronteia.

 

Atirar em um jornalista foi uma tática deliberada das Forças de Ocupação de Israel (IOF) para semear o medo e desencorajar os profissionais de expor ao mundo a verdade dos acontecimentos.

 

Para os palestinos, especialmente os residentes de Gaza, não resta outra opção senão protestar e denunciar os abusos aos quais são submetidos. Gaza é uma estreita faixa de terra, totalmente cercada por Israel, incluindo suas fronteiras. O Estado israelense impõe restrições que privam os palestinos de sua liberdade de autodeterminação, relegando-os a um nível de subsistência, chegando ao extremo de bombardear fábricas de alimentos para animais e produtos agrícolas. Além disso, controla até mesmo a quantidade de ajuda humanitária permitida a entrar no território, baseando-se em quantidades mínimas de calorias que uma pessoa deve consumir para evitar a morte por inanição. Nesse contexto, o único sabor de liberdade que uma criança em Gaza pode experimentar é lançar suas pipas ao ar, assim como o jornalista palestino buscava a liberdade ao manobrar seu drone.

 

Murtaja era o tipo de pessoa que conquistava o amor de todos ao seu redor. Quando não estava dedicado ao trabalho, ele se envolvia com as pessoas, sempre buscando maneiras de ajudar. Uma das formas que encontrou foi ensinar fotografia, capacitando outros a compartilhar as belezas de seu povo, país e cultura com o mundo. Um dos primeiros alunos que teve foi seu irmão, que continua atuando como jornalista em Gaza até os dias de hoje.

 

Este jornalista foi adotado como um filho da Palestina, e muitos líderes políticos prestaram homenagens e respeito à sua família durante o velório, mesmo que ele não estivesse vinculado a nenhum partido político, ao contrário das acusações sionistas. A única bandeira que cobria seu caixão era a da Palestina, pela qual ele deu sua vida sem ter a chance de vê-la tremular como símbolo de um Estado livre. Durante seu funeral, o céu estava límpido e claro, mas não havia uma única pipa voando no ar.

 

Duas semanas antes de morrer, Yasser Murtaja postou uma foto tirada com seu drone sobre o porto de Gaza. Sua legenda dizia: 


“Espero que chegue o dia em que eu possa tirar essa imagem quando estiver no céu e não no chão! Meu nome é Yasser, tenho 30 anos, moro na cidade de Gaza e nunca viajei na minha vida!” 24 de março de 2018.





[1] Surviving Shujayea (Sobrevivendo a Shujayea), o documentário registra o perigoso resgate da menina Bisan Daher em 2014.

 

 
 
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