Guerra no Sudão empurra país para a maior emergência humanitária do mundo, com fome, deslocamento em massa e colapso da saúde
- www.jornalclandestino.org

- 13 de jan.
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Após quase três anos de conflito, o Sudão enfrenta uma crise humanitária sem precedentes. Milhões de pessoas sofrem com fome aguda, deslocamento forçado e falta de atendimento médico, enquanto hospitais são atacados e serviços básicos entram em colapso. Agências da ONU alertam que, sem acesso humanitário e recursos urgentes, a situação tende a se agravar em 2026.

O conflito iniciado em abril de 2023, após uma disputa de poder entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido, transformou-se em uma guerra civil prolongada que se espalhou da capital, Cartum, para regiões como Darfur, Kordofan e outras áreas do país. A violência contínua destruiu infraestrutura, fragmentou instituições estatais e expôs a população civil a deslocamento, fome e insegurança extrema.
Segundo estimativas das Nações Unidas, cerca de 33,7 milhões de pessoas — aproximadamente dois terços da população sudanesa — deverão necessitar de assistência humanitária em 2026. Atualmente, mais de 21 milhões enfrentam insegurança alimentar aguda, enquanto outros 20 milhões precisam de algum tipo de atendimento médico, em um cenário de acesso restrito e financiamento insuficiente.
As repetidas tentativas de cessar-fogo fracassaram, e grandes áreas permanecem inacessíveis para equipes humanitárias devido a combates ativos, entraves burocráticos e riscos à segurança. Como resultado, a entrega de alimentos, medicamentos e outros serviços essenciais tem sido severamente limitada.
O sistema de saúde do Sudão está à beira do colapso. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de um terço das unidades de saúde do país encontra-se fora de operação. Desde o início da guerra, a OMS confirmou 201 ataques a serviços de saúde, que resultaram em 1.858 mortes e 490 feridos, em violação ao direito internacional humanitário.
A pressão sobre hospitais e clínicas aumentou com o deslocamento em massa da população, a escassez de insumos, surtos de doenças e desastres naturais. Em muitos locais, pacientes são atendidos em tendas improvisadas, diante da destruição ou inutilização de instalações médicas.
Apesar das dificuldades, a OMS afirma ter distribuído mais de 3.300 toneladas métricas de medicamentos e suprimentos médicos, avaliados em cerca de 40 milhões de dólares. A organização também apoiou campanhas de vacinação contra a cólera e ampliou o acesso a cuidados médicos por meio de hospitais, centros de saúde primários e clínicas móveis.
O deslocamento forçado atingiu níveis históricos. Aproximadamente 13,6 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, sendo cerca de 9,3 milhões deslocadas internamente e outras 4,3 milhões refugiadas em países vizinhos. As condições precárias em acampamentos superlotados, com saneamento deficiente e serviços interrompidos, favoreceram a propagação de doenças como cólera, malária, dengue e sarampo.
As crianças são as mais afetadas pela crise. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), elas representam cerca da metade das pessoas que precisarão de assistência humanitária no próximo ano. A agência alerta para mortes e ferimentos frequentes entre menores, incluindo relatos de oito crianças mortas em um único ataque recente no Cordofão do Norte.
No norte de Darfur, quase 85 mil crianças com desnutrição aguda grave receberam tratamento entre janeiro e novembro de 2025, o que equivale a uma criança atendida a cada seis minutos. O dado evidencia a gravidade da crise nutricional em curso.
A ONU reforça que a ajuda humanitária, embora vital, não substitui uma solução política duradoura. As agências pedem acesso seguro e irrestrito a todas as regiões do país, além de maior financiamento internacional para evitar o agravamento da situação.
Autoridades da OMS e do UNICEF reiteram que somente o fim dos combates e o respeito ao direito internacional humanitário — incluindo a proteção de civis, da infraestrutura essencial e a garantia de corredores humanitários — poderão interromper a deterioração das condições de vida e preservar a saúde, a segurança e a esperança da população sudanesa.



















































