Parem de 'apaziguar' o valentão, disse chefe da Anistia Internacional à Europa
- www.jornalclandestino.org

- 20 de jan.
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A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnes Callamard, defendeu nesta segunda-feira (20) que países europeus adotem uma postura mais firme frente às pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em entrevista concedida durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, ela afirmou que a estratégia europeia de evitar confrontos diretos tem estimulado novas ameaças. As declarações ocorrem em meio à intensificação do discurso de Trump sobre a possibilidade de tomar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca. Segundo Callamard, a credibilidade política e moral da Europa está em risco. Para a dirigente, a situação expõe uma erosão mais ampla da ordem internacional baseada em regras construída após a Segunda Guerra Mundial.

Nos parágrafos iniciais de sua análise, Callamard afirmou que a Europa precisa demonstrar “mais coragem” e ser capaz de dizer não a líderes que recorrem à intimidação política e econômica. De acordo com ela, tentar negociar sob as regras impostas por potências mais fortes apenas amplia a vulnerabilidade dos países atingidos. A secretária-geral ressaltou que ceder à pressão não reduz conflitos, mas tende a incentivá-los.
O posicionamento da Anistia surge após Trump reafirmar que pretende obter o controle da Groenlândia “de uma forma ou de outra”, alegando razões ligadas à segurança global. As declarações provocaram reação imediata de governos europeus, especialmente da Alemanha e da França, que classificaram como “chantagem” a ameaça de imposição de novas tarifas comerciais contra países contrários ao plano norte-americano. Autoridades desses países indicaram que contramedidas econômicas estão sendo avaliadas.
Apesar das críticas, setores da liderança europeia têm defendido cautela. O chanceler alemão Friedrich Merz, que tinha encontro previsto com Trump em Davos, afirmou que o continente busca evitar uma escalada do conflito diplomático e comercial. Ainda assim, a divergência interna evidencia o desafio europeu de equilibrar a dependência estratégica dos Estados Unidos com a defesa de sua soberania política.

Para Callamard, a questão da Groenlândia é apenas um dos sinais de um processo mais profundo de enfraquecimento das normas internacionais. Ela avaliou que, desde o retorno de Trump à Casa Branca, decisões tomadas por Washington contribuíram para o desmonte de acordos e mecanismos multilaterais. No mesmo contexto, mencionou a guerra na Ucrânia, atribuindo à Rússia a responsabilidade por violar princípios fundamentais do sistema internacional ao recorrer à agressão militar.
A dirigente também citou Israel como outro ator que, em sua avaliação, tem ignorado o direito internacional ao conduzir operações militares na Faixa de Gaza. A Anistia Internacional e outras organizações de direitos humanos acusam o governo israelense de promover atos que caracterizariam genocídio contra a população palestina, acusação rejeitada oficialmente por Israel. Para Callamard, esses episódios demonstram que tanto superpotências globais quanto regionais têm contribuído para a fragilização das regras comuns.
Ao relembrar a origem da ordem internacional do pós-guerra, Callamard destacou que ela foi criada como resposta aos horrores do conflito mundial, aos campos de extermínio nazistas e ao avanço do autoritarismo no século XX. Segundo ela, a destruição desse sistema sem a apresentação de uma alternativa viável representa um risco histórico. A dirigente alertou que o abandono das normas pode levar a um cenário de instabilidade permanente.
Embora o Fórum Econômico Mundial deste ano tenha adotado o lema “Um Espírito de Diálogo”, Callamard afirmou não enxergar, na prática, um ambiente de diálogo entre os principais tomadores de decisão globais. Em sua avaliação, o que predomina é o uso de poder militar e econômico para impor acordos unilaterais. Ela argumentou que a resposta europeia a esse comportamento tem sido, majoritariamente, o apaziguamento.
Ao final, Callamard apelou para que líderes europeus recuperem o sentido original do projeto do continente, baseado não apenas na integração econômica, mas também na defesa de valores, direitos humanos e do Estado de Direito. Para ela, o momento atual exige resistência política e clareza de princípios. “Parar o apaziguamento é essencial”, afirmou, ao defender uma postura mais assertiva em defesa da ordem internacional e da proteção dos direitos humanos.



















































