Venezuela: Para além do sequestro do petróleo e do sequestro de Maduro
- Rafael Medeiros

- 18 de jan.
- 3 min de leitura
ARTIGO DE OPINIÃO
Uma Análise da Riqueza Substantiva contra o Cerco Imperialista
Por: Rafael Medeiros | TREZZE Comunicação Integrada | Jornal Clandestino.
A narrativa hegemônica sobre a Venezuela costuma oscilar entre dois polos reducionistas: o "petro-estado falido" ou a personalização do conflito na figura de Nicolás Maduro. Ambas as visões operam como uma cortina de fumaça que oculta a verdadeira anatomia do subsolo venezuelano e as razões materiais pelas quais o país é o epicentro da guerra híbrida no século XXI. Para entender a Venezuela hoje, é preciso escavar abaixo da superfície do petróleo e compreender o papel do país na divisão internacional do trabalho e na transição energética global.
1. A Dualidade Geológica: O Norte Fóssil e o Sul Mineral
Diferente da imagem de um "monocultivo", a Venezuela é geologicamente bipartida. Ao Norte, as bacias sedimentares abrigam os 303 bilhões de barris de petróleo e a 8ª maior reserva de gás do mundo. Ao Sul do Rio Orinoco, o Escudo das Guianas uma das formações mais antigas da Terra oferece o que o capital financeiro internacional mais cobiça para a próxima década: minerais estratégicos.
Esta realidade geográfica impõe uma contradição: enquanto o Norte financiou o Estado rentista do século XX, o Sul é a fronteira da Indústria 4.0. O "Arco Mineiro do Orinoco", com seus 111 mil km², não é apenas um projeto extrativista; é o depósito de coltan (ouro azul), níquel e terras raras, componentes indispensáveis para a descarbonização da economia central e para a produção de semicondutores.

2. Ouro, Ferro e Coltan: A Pilhagem versus a Soberania
A análise marxista nos ensina que a riqueza mineral, sob o capitalismo, não é apenas um recurso, mas um valor de uso que o imperialismo busca transformar em valor de troca para sustentar sua taxa de lucro.
Ouro e Bauxita: Com potencial de 8.900 toneladas de ouro e bilhões de toneladas de bauxita e ferro, a Venezuela detém a base da indústria pesada.
O Níquel e a Transição Verde: Com 28,9 milhões de toneladas de reservas de níquel, o país torna-se peça-chave na fabricação de baterias para veículos elétricos.
Aqui reside o nó crítico: o "sequestro" de Maduro, na retórica ocidental, é o pretexto moral para o sequestro das reservas. As sanções econômicas (Medidas Coercitivas Unilaterais) funcionam como um cerco medieval moderno, visando desestabilizar o controle estatal sobre esses recursos para que possam ser reincorporados às cadeias de suprimento globais sob termos neoliberais.

3. A Contradição do Extrativismo e o Bioma Amazônico
Um olhar crítico não pode ignorar as tensões internas. A exploração do Arco Mineiro coloca em xeque a sustentabilidade do bioma amazônico. O desafio do socialismo bolivariano ou de qualquer alternativa ao capital é como converter 14 trilhões de dólares em potencial geológico em desenvolvimento humano sem repetir a "acumulação primitiva" que destrói o ecossistema e as comunidades indígenas locais.
A gestão desses recursos sob cerco econômico empurra o Estado para soluções de emergência que, muitas vezes, sacrificam o rigor ambiental em nome da sobrevivência fiscal. É a tragédia da periferia: ser forçada a exaurir sua natureza para financiar sua soberania contra o centro imperial.
4. Geopolítica: A Peça-Chave da Indústria 4.0
A Venezuela não é um "poço de petróleo" isolado; é o tabuleiro onde se joga a hegemonia tecnológica entre os EUA e o bloco China-Rússia. O acesso ao Coltan e às Terras Raras venezuelanas define quem liderará a inteligência artificial e a tecnologia aeroespacial. O "congelamento" de ativos venezuelanos no exterior e o bloqueio comercial são, portanto, ferramentas de transferência de valor e de controle de matérias-primas críticas.
Para além da Renda Petroleira
A emancipação da Venezuela exige superar o fetiche do petróleo. A geodiversidade do país oferece o lastro para uma economia diversificada, mas essa potencialidade só se realizará plenamente se desatada das amarras do sistema financeiro global que penaliza a soberania nacional.
A questão venezuelana, portanto, não é sobre uma figura política, mas sobre quem tem o direito de gerir um dos subsolos mais estratégicos do planeta. O debate deve deixar de ser sobre a "crise humanitária" abstrata para focar na soberania sobre a matéria-prima, sem a qual não haverá transição energética nem justiça social no Sul Global.
Um link fundamental para entendermos a Venezuela: https://youtu.be/n67Ou6qWjH0?si=7JaJo2TIMpYl-Pc1
Por Rafael Medeiros | TREZZE Comunicação Integrada | Jornal Clandestino.
























































