O Rio da Guerra: O Luto Invisível das Mulheres
- Zina Covesi

- 3 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Enquanto os números oficiais contabilizam 132 mortos na maior operação policial da história do Rio, a real dimensão da tragédia se revela no silêncio das mulheres. Elas são as protagonistas involuntárias de um drama que se repete, de conflitos internacionais às periferias brasileiras: o de reconstruir a vida a partir dos escombros deixados por embates alheios.

Na manhã do dia 29 de outubro, o Rio acordou sob um manto de luto. Por trás do número histórico de vidas perdidas na ação do governo estadual que resultou na maior chacina da história do Rio de Janeiro, existe outra estatística, mais silenciosa e universal: são centenas de mulheres transformadas, em um único dia, em viúvas, mães sem filhos, filhas sem pais.
Esta chacina, travada com tecnologia moderna e uma determinação que frequentemente ignora a humanidade, tem cor, homens pretos e periféricos nos holofotes dos governantes, comandantes, traficantes, mas o seu legado de sangue e dor é deixado para ser administrado pelas mulheres.
Enquanto os universos paralelos do poder travam seu jogo de poder e força, são elas, nas comunidades do Rio, que se tornam as guardiãs da memória e as responsáveis por enterrar seus mortos.
A violência não distingue o bem e o mal, e a dor da perda, muito menos. O pranto de uma mãe que perde o filho em um genocídio no outro lado do mundo é o mesmo som gutural de uma mãe na favela do Rio de Janeiro ao identificar o filho entre os corpos.
A geografia do sofrimento é única, mas seu eco é global.
Elas são as historiadoras não oficiais dessas tragédias, são as que guardam na memória a abraço do filho, a promessa do marido, o sorriso do irmão. São as que sabem que, com aquele tiro, não morreu apenas uma vida, morreu o direito ao julgamento, morreu a chance de uma história ser contada até o fim. Simplesmente mataram. E quem sobra para chorar os mortos e sepultar os sonhos são elas.
Esta não é uma tragédia de “danos colaterais”; é uma penalidade coletiva aplicada sobre as mulheres. As mães de jovens negros das favelas, que sempre souberam que o Estado enxergava seus filhos como culpados, hoje veem essa lógica elevada à potência de uma nova chacina. Em um conflito assim, não há vencedoras, há apenas mães de todos os lados sendo castigadas pela guerra que os homens decidiram travar.
O Rio continua maravilhoso? Talvez para quem não precise limpar o sangue de seus.
A cidade que emerge do dia 28 de outubro é uma cidade onde a maior operação da história, escorre, silenciosa, pelo ralo das casas, carregada pelas lágrimas de suas mulheres.




















































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