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Um dia para não esquecer: Jornalista faz relato pessoal sobre ato que protestou contra chacina no Complexo do Alemão e Penha

Na sexta-feira (31/10) fui escalado para cobrir um Ato que reuniu entidades do movimento social e sindicatos e os moradores do Complexo da Penha e Alemão, em protesto contra a chacina que matou mais de 120 pessoas em uma megaoperação policial que começou na noite de segunda-feira (28/10). 


Vi muitas mulheres chorando seus companheiros, filhos e netos mortos. Crianças que ainda não entendiam o que estava acontecendo. O clima era de tristeza e revolta. O vai e vem e ronco das motos te deixa aturdido. No campo da Ordem, uma multidão se misturava entre militantes e moradores, sob uma chuva fina que parecia acalmar tanta revolta. Nas paredes e muros havia grafites de Adriano, o Imperador. Eu pensei, poxa, um cara daqui, tão querido, podia estar aqui, naquele momento.


Eu olho e penso que forma vou produzir um vídeo e fazer minhas fotos, olho tudo e a todos. Cartazes, faixas, kombis, motos, pessoas, moradores e casas. Acho uma laje para fazer imagens e fotos. Jornalistas estrangeiros em peso estão lá, num espaço de três andares. Na parede vejo marca de tiros e verifico portas arrombadas, com marcas de sangue no chão. Penso: ‘é, aqui aconteceu alguma coisa”.


Ando pelas vielas, vejo barricadas, carros queimados, fios de internet arrebentados, janelas sem vidros e um cheiro estranho. Um cheiro de cloro, um cheiro de sabão em pó.


A passeata começa, faixas se abrem e descemos para o asfalto. Pelo menos duas mil pessoas misturadas entre moradores e militantes pedem o fim das chacinas e da violência policial. “Fora Claudio Castro!”, é o que mais se ouve. No asfalto, quase na área central do bairro da Penha, quase ao pé da icônica igreja, o povo para. Então passam as motos, os motoqueiros, são trabalhadores de aplicativos. Não sei quantos são. 


Um homem com uma roupa branca, parecendo ser um religioso do candomblé gritava:


“isso tem que parar, chega de matar o povo preto, vocês também são pretos, vocês são como nós”,

dizia ao olhar para a porta de um quartel de bombeiros, falando para soldados e oficiais que pareciam rir da passeata. Isso me impressionou.


@ANDRÉ LOBÃO
@ANDRÉ LOBÃO


A passeata se ia, voltando para a favela. Eu estava com fome e parei numa padaria, e pedi um pão com ovo. Perdi a continuidade do ato e quando consegui chegar na rua onde os mais de 70 corpos haviam sido colocados por seus familiares no dia anterior, ainda peguei a parte final das mulheres declamando os nomes de seus mortos.


O ato acabou e a vida continua no Complexo do Alemão e Penha. Eu fui embora com as imagens na minha cabeça, refletindo que mundo era aquele, e o que afinal acontecera ali. Não há razão que justifique tamanha barbárie por parte do poder público.

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